Trilogia O Trono do Sol, o Mundo Diverso - Literários

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Desde que eu comecei a ler O Trono do Sol, há uns três anos, muita coisa mudou. Li muitos livros, exercitei minha percepção e análise, e eis que em 2017 eu termino a trilogia, e ele acabou tendo um gostinho um pouco diferente. Aqui você lerá uma análise longa, repleta de coisas sobre os livros, seu mundo, seus personagens e a história. Entretanto, não haverá muito spoilers, nem muito sobre a história; alguns, claro, não terá como evitar, e aqui já peço desculpas... Mas, vamos lá!
           

S.L. Farrell escreveu sobre um mundo enorme. E fico ainda mais feliz quando descobri que há mais livros deles que se passam nesse universo. Ele é repleto de lugares e cidades grandiosas, de impérios, reinos, guerras, conflitos religiosos, magia e ótimos personagens. No entanto, o que mais vale a pena desse mundo é por sentir que ele realmente é um mundo. Desde o começo da história nós nos sentimos imersos nele. Algumas obras de fantasia não conseguem trazer tal sensação, mas Farrell consegue e muito bem. Ele criou títulos, posições, línguas, magia e uma religião nova. O vocabulário inventado não é tão vasto nessa trilogia, mas sem dúvida é de grande importância para fazer você entrar nesse universo. Percebemos isso quando ele não precisa de explicações basiconas para te mostrar o que é cada coisa. O autor escreve de uma forma que com a nossa própria interpretação já sabemos o significado. E caso pareça um pouco perdido, no final de cada livro há um apêndice com informações extra, tipo de status social, o começo do livro sagrada e da criação do mundo, além de uma lista de personagem. Qualquer coisa só consultar.

            Mas aí você ainda tem alguns duvidas e que saber um pouco mais, então se pergunta: o esperar desse mundo? Mágicos, feiticeiros, “sacerdotes”, assassinos, pintores, guerreiros, reis, ateus, mendigos, sádicos, e mais um punhado de coisas que funcionam no enredo. Estão aí todas as coisas que queremos numa bela história de fantasia, e realmente não há muito mais o que pedir nesse ponto analisado. Ah! Claro, não posso me esquecer de Nessântico, a cidade-personagem da história, onde tudo gira em torno. Onde abriga o famoso Trono do Sol, que brilha misteriosamente sem ajuda de ninguém. Ela é a pérola, o prêmio, o grande título, a vitória definitiva. É ela que faz tudo acontecer e também sofre as piores consequências.

            Um dos pontos fortes da história está nas questões religiosas que são apresentadas. Sempre é um prato cheio termos uma religião bem desenvolvida na história e é isso que ganhamos com a leitura. Aqui, originalmente somos apresentados aos numetodos – que não acreditam em Cénzi, o deus dos Domínios, e em nenhum outro. Acreditam na razão e que só ela poderá dar as melhores respostas para vida. Desde o começo da história há o embate entre eles e a fé conzenciana, e você verá enforcamentos e traições. E ainda mais, a magia do mundo de Farrell existe, mas apenas os tênis, padres e servidores da religião, podem usar por meio de cantigas e gestos com as mãos. Os numetodos criticam justamente isso, falando que não há necessidade de uma fé para usar a magia, e que há um método preciso para utilização dessa... Então, esperem muitos conflitos, e provavelmente você escolherá um lado.

            Apesar de tantos prós nesse mundo, tem um outro motivo que ele particularmente encanta. Ele é muito próximo do nosso. Não há como ver Nessântico sem ver Paris, o centro do mundo no século XIX (E a propósito, o autor se inspirou e muito na cidade e na história de Paris). Ou sem ver os Numetodos como ateus. Ver as termologias Ocidentais e Orientais como nossas próprias designações. E por isso trás um encanto especial, um mundo realista, pé no chão, pintado de cinza como George Martin falou. Se você gosta desse tipo de fantasia, nada “fora da caixinha”, mas que traz sempre surpresas para nós e para os próprios personagens, ele livro agradará bastante.
           

            Puxando as surpresas para já, falarei da narrativa e a história. Como é um mundo bem bolado e planejado, não se assuste, mas o enredo demora um pouco para engrenar. Farrell optou por apresentar bastante coisa antes, para que você não se perca no meio do livro. Então poderá parecer chato no começo, mas continue, apenas continue que você será gratificado com reviravoltas, traições, assassinatos e guerras. E com esses pontos fortes, a sua narrativa apenas melhora as situações. O autor traz uma narrativa meio cinematográfica, sempre começando os capítulos com belas visões, pontos de vistas diferentes, quase como se escolhesse onde a “câmera” começaria a rodar. Então se deixe imaginar linha por linha a história, leia com calma e apreciando as palavras, que você terá a sua frente uma história encantadora. Entretanto, não espere algo inesperado; é a mesma formula de reviravoltas, traições, causas sem esperanças e voltas por cima. Inimigos que virão amigos e amigos que virão inimigos. Nesse ponto, Farrell tenta se aproximar ao máximo das nossas vidas cíclicas, utilizando do trágico para pintar as coisas de cinza.

            Eu considero essa narrativa cinematográfica o ponto alto e algo que vale a pena de ser lido e se ter na estante. Aos escritores, faz com que pensamos em formas de apresentar as cenas, fugindo dos clichês simplistas. Mas também a história, apesar da mesmíssima, também é algo bem arquitetado e bom de se ler, principalmente para conhecer os artifícios desse mundo em conflito e seus ligamentos. É uma viagem direta àquele mundo.
            Mas se o mundo é tão grande assim, então é certo que veremos nos livros os mais vastos e diferentes personagens? Sim, é isso mesmo. Todos eles tem um simbolismo nessa história, alguns mais outros menos. Temos também algo muito bem vindo nos tempos de hoje: personagens femininas fortes, e elas são várias, recheiam o mundo e as fazem de grande peso em todas as camadas da história e daquele mundo. Elas em nenhum momento são retratadas como sexo frágil, nem os próprios personagens acreditam nisso. Pelo contrário, há um certo louvor a elas; as rainhas, mães de famílias, sacerdotisas estão estreitamente ligadas no jogo político, social e religiosa e tem grande espaço para desenvolvimento. Mas então você se pergunta se elas são bem desenvolvidas... e eu responde que vai depender do que você espera. A narrativa é em terceira pessoa e cada capítulo acompanha a perspectiva do personagem, então não teremos um aprofundamento psicológico: os personagens, tanto masculinos quanto femininos, são apresentados mais do ponto de vistas dos outros, não deles mesmo (ou pelo menos é muito mais interessante a perspectivas dos outros). É frente à própria perspectiva do personagem que o desenvolvimento dele aumenta em qualidade.

            Por exemplo: um personagem pode aparecer muitas vezes, mas nada se fala muito dele. E seu capítulo não desenvolve nada mais que apenas a história. Então ele sim é um personagem “papelão”. Devo informar que há bastante desses, e de certa forma foram pouco aproveitados na trama, mas em compensação há personagens que nos chama atenção desde o começo, como Sergei, ele tem um Nariz de Prata e é um viciado em mutilar e fazer pessoas sofrerem. E ainda melhor, ele é praticamente o guardião de Nessântico. Sua relação com o numetodo Karl é riquíssima e sincera para nós. Criamos afeição aos dois.
            Outra coisa bem recorrente na história são as relações dos personagens, em que o primeiro conhece o terceiro, e o terceiro conhece o segundo, que não faz idéia que é o primeiro conhece o terceiro. Eu sei, eu sei, ta confuso, mas basicamente você sabe das relações dos personagens sem eles saberem delas. Mais ou menos como novelona.
           
Essa escolha de muitos personagens, capítulos POV acaba por fortalecer a diversidade desse mundo e, de livro para livro, trazer um dos principais pontos da trilogia, a passagem do tempo. A sensação de conhecer muitas pessoas, essas descendentes daquelas, amigos dos que morreram, esposas e maridos que perderam seus amados, juntamente com as décadas que se passam livro após livro, faz criar a sensação de que as coisas não são e jamais serão as mesmas. Personagens morreram e agora são lembrados, ou até foram esquecidos. E o que sobrou de tudo são cacos e desordem, sonhos e desejam... mas aqueles, que tanto amamos e acompanhamos linha por linha, já não estão mais lá. No terceiro livro, por exemplo, a memória de um personagem, tão importante no primeiro, já nem é citada. E outro, se é, é quase como uma nostalgia.

            É esse a principal lição do livro. Não importa quem viva e quem morra, não importa as guerras e as relações pessoais e religiosas, elas nunca mais estarão “aqui”, mas Nessântico, essa personagem-cidade, sempre estará. Esse monumento, quebrada, trucidada, renovada, sempre estará vivo.

            Agora você chegou até aqui e gostou da trilogia, quer comprar. Você mediu os prós e contras, e decidiu que será uma boa história para se ter na estante. Pare por aí. Calma, as coisas ainda não acabaram. O Trono do Sol é tudo o que eu disse aí em cima, há coisas que eu não gostei e mais coisas que eu amei, mas não cabe a mim revelar spoilers de mais personagens ou da trama – vai por mim, nisso ele é riquíssimo. Entretanto, a sensação de terminar é que ele poderia ser muito, muito mais. Esse mundo vasto poderia ser bem mais explorado e desenvolvido. Poderíamos ter personagens mais marcantes e realmente incríveis (apesar do propositor é trazer personagens críveis, ah, vocês me entenderam). Poderíamos ter mais magia – mas nesse ponto eu acredito que seja opção do autor, afinal, a cada livro os próprios personagens descobrem mais sobre sua magia –, mais guerras, mais religiões, mais deuses. Você lerá e pensará da mesma forma. Há grande potencial em tudo ali, e é por isso que no começo desse texto eu disse que fico feliz por saber que há mais histórias sobre esse mundo, a esperança de ver tudo bem aproveitado aumenta. Até a parte política do livro, as relações entre impérios, reinos e províncias, rebeliões e guerra fronteiriços podiam ser mais explorados.

            É uma boa história para se ler. Se você é um daqueles fãs de fantasia política, guerras de impérios e personagens bem diversos que mostram toda a pluralidade daquele mundo, você terá. Se você procura universos para imergir e viver, você também terá. A história é fechada com o final, há noção de evolução e ela passa um recado. Mas talvez, e isso é bem provável, você termine com a sensação que poderia ser escrita a mesma história, mas bem mais elaborada e desenvolvida. Você terminará, mas sentirá que faltou algo mais.
           

            Agora sim você poder correr comprar, prometo que terá uma bela de uma viagem por Nessântico, conversar com seus personagens, praticar um pouco de magia, batalhar em algumas guerras, quase morrer, ver ótimas explosões, mandar assassinar alguém, entrar numa cela e ver prisioneiros sendo torturados, criticar, fugir... E depois de tudo: acordar com um pouco de saudades. 


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Quero pedir desculpas por não ter muitos desenhos diversos nesse texto, por mais que seja uma boa trilogia, não há muitos desenhos sobre a história nem dos personagens. Desculpe :/

Matheus Vasconcelos, o MathVas, tem 17 anos e cursa faculdade de História. Seu ofício e ócio são a escrita e, como nunca teve ajuda no começo, procura ajudar ao máximo jovens escritores como ele. Ama qualquer tipo de livros, mas acima de tudo a fantasia e o romance histórico. É daqueles que juntam centavo por centavo para comprar livros, nada mais!

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