Algumas Palavras sobre Breaking Bad - 24 Quadros

 Um velho segurando uma arma no meio de uma estrada de terra – que está no meio de um deserto – aponta para o nada. Ele está sem calça, apenas vestido uma camisa verde. No fundo o som de sirenes. Aí você se pergunta, que porra é essa? E eu respondo com algumas palavras em forma de um texto.
            Breaking Bad é uma das melhores séries já produzidas e tem uma legião de fãs. Como sempre, há um grupo de pessoas que vê um, dois episódios e acha chato. Normal, se algo não nos prende do começo, pode ser que essa série não seja para nós. Entretanto, o que me causou espanto é perceber que pessoas dos mais diversos gostos gostam muito dessa série. E é porque ela consegue enquadrar inúmeros símbolos, desde controle, poder e ganância à determinação e astúcia e amor.
           

      História e Roteiro
            Por baixo dessa grande jornada de Sr. White podemos diminuir a história para algo simples: um homem que tenta conquistar o controle da sua vida e do seu destino. Acontece que esse caminho trilhado por esse professor com câncer arrasta todos a sua volta para a desgraça, quase como se aquele fosse o preço de uma pessoa tentar controlar seu destino. Talvez isso seja uma lição do perigo dessas ações é que, como aprendemos no final, devemos reconhecer nossas responsabilidades (“Tudo que eu fiz... eu fiz isso por mim. Eu gostei de fazer. E eu era bom naquilo. E eu me sentia... vivo.”) e ajeitar tudo. Seja o que for que fez nosso destino sair das nossas mãos, o preço de recuperá-lo é árduo, e Walter nos mostrou que a caminhada, meus amigos, nunca será como imaginamos, e pode cobrar altos preços.

Entretanto, jamais deveremos simplificar a série à esse ponto.
Quando fui à uma palestra do Brian Azzarelo sobre roteiros, ano passado na Comic Con, o quadrinista acabou citando algumas vezes a série:
            - Breaking Bad é uma ótima série. Seu roteiro é perfeito. Eu não mudaria nada nele, do começo ao fim. O final é simplesmente perfeito e deu tudo aquilo que eu queria ver. (Não foram exatamente essas as palavras, mas é a ideia geral).
            Acho que isso é um dos principais pontos que todos adoram nessa série. Não tem o que você mudar. Não precisa ser escritor para você entender o que deve ser mudado ou não. Antes disso, escritores, roteiristas também são leitores e amantes de filmes e séries. É questão de sensação. Você se sentir satisfeito com o que está vendo. Não haver nenhuma falha, nada forçada: pelo contrário, tudo criado com equilíbrio e leveza. Talvez você fique irritado e puto com certos eventos, mas é simplesmente porque aquilo te afetou, não que é ruim. Breaking Bad, ao que se acredita por ter um roteiro maravilhoso, será marcante em quase sua totalidade. Não, não é isso. Os roteiristas e o criador souberam dosar perfeitamente as tensões no roteiro; nas falas dos personagens. Só uma ou outra vez realmente você escutará aquilo que ficará na sua cabeça: “Say my name” “I’m the danger” “Yeah, Science!”. São frases utilizadas apenas uma vez ao longo de 5 temporadas. O próprio nome de guerra de Walt, Hesinberg, foi usado tão pouco que da para contar nos dedos. Entretanto, eles são tão marcantes pelo fato de serem raros, que acabam “mitificando” a série, sendo esses alguns dos pontos altos (em falas); e a representação dela.

            O tom encaixa perfeitamente com a história. Se percebermos, é uma história simples, igual as falas, mas ela é tão bem construída e finalizada que essas falas representam muito mais do que aquilo que elas falam apenas “sonoramente”. As situações aparecem de uma forma esperada (espere um momento, vou explicar porque às vezes é difícil afirmar isso) e são resolvida, em grande parte com soluções igualmente esperadas. A câmera segue padrões simples de filmagem. Nada de muito extraordinário. E basta dar uma olhada nos personagens... o que vocês sabem das vidas deles? Percebem? Parece que eles não têm um passado. Quem são os pais de Walter, o que fazem? Como foi a infância dele? Como conheceu a Skyler? Em qual Universidade se formou? .... Agora faça essas perguntas à cada personagem.. e você perceberá que terá respostas simples: um perdedor, um policial, uma esposa, um submisso, um filho, um rico, traficantes, empreendedores. Pegue a história de Gustavo Fring.  A representação de sua vida expressa exatamente o tom da história. O passado de Gus no Chile é praticamente queimado, não existe... em contra partida, sabemos apenas de algumas coisas, como arranjou uma reunião para apresentar a proposta da venda de metanfetamina, e que ele imigrou do México. O que tiramos disso e que a série comprova a cada episódio? As escolhas.

            Em Breaking Bad elas sobrepõem a história de vida, como se o passado de alguém não é majoritariamente o que faz uma pessoa. Não é a única que transforma o eu. E isso vai contra quase toda produção cinematográfica e de TV (claro que ela não é a única, e que há muitas que abordam dessa forma, mas elas são pouquíssimas comparadas a toda produção). Nada de fantasmas do passado lhe assombrando em flashbacks, e se eles aparecem, estão relacionados aos momentos atuais. Quando Eliot, na última temporada, fala que Walter só teve a criação do nome da empresa como contribuição para ela, ele não relembrou a sua mágoa interna, apenas sentiu seu orgulho ferido.


      As Escolhas
            O ponto que quero mostrar é que, se as escolhas predominam na história – e seu ápice é quando Walter decide seguir como cozinheiro e traficante, mesmo sabendo de todos os maus que vem com essa decisão – quer dizer: o que devemos ver é o presente e seu desenrolar, ou seja, devemos ver o todo que está na tela; aquilo é importante... E quando digo tudo... é tudo! As roupas, os móveis, os objetos, as fotos, as cores, os lugares, as posições, as expressões... e por aí em diante. A teoria das cores é um grande exemplo. Lavar carro e lavar dinheiro. O Walter sempre estar pensando perante a uma piscina. Quando alguém apanha, apenas um lado fica estourado (sempre é um lado). Há muitíssimas coisas para exemplificar, mas acho que vocês entenderam. Basta olhar a fotografia da filmagem, é simples sim, mas... ela é utilizada para mostrar o que devemos ver. Geralmente o enquadramento é amplo, mostrando todo o ambiente, os contrastes, mostrando todas as pessoas inteiramente, mostrando os objetos, o cenário; basicamente toda a totalidade. Não há o que esconder ou causar mistério, as cartas estão postas na mesa.


Acontece que há uma exímia ligação entre esses aspectos e as situações e os eventos que se sucedem na história. A escolha delas é genial. Podemos ter um roubo de um trem... mas ele é de Metilamina, e é feita com apenas 4 pessoas, um reservatório de água e algumas mangueiras. Ou quando se precisa roubar um barril... de Metilamina... e você prende um guarda num banheiro químico, enquanto queima uma fechadura com o material de brinquedos e saí carregando o barril em dois (sem rolar...). Essa face multifaceta da série junto com todos os detalhes é o que faz dar a noção de uma história complexa, apesar de ter resoluções esperadas. Ou seja, a espinha dorsal da história segue simples, mas o corpo tem tanta carne, repleto de órgãos e tendões, articulações e cartilagens, conexões neurais e um coração que bombeia forte para suas veias e artérias... que você não consegue ver a constituição primária.

           
         Arquiteto ou Jardineiro?
Sabe quando você lê e assiste algo em que a seqüência de eventos se sucedem, uma atrás da outra, como se sempre surgisse problemas? E quando a história opta por interligar todos os pontos para converter em situações e eventos arquitetados desde os primórdios? É comum ver essas duas faces, e principalmente a segunda me agrada bastante na maioria dos casos. Eu poderia dizer que os detalhes e os eventos de Breakings Bad estão todos amarrados, como se fossem planejados antes mesmo da gravação da 1° temporada. Entretanto assistindo pela segunda vez comecei a me perguntar se era mesmo assim. A conclusão: o criador da série optou por mesclar. Não sei dizer se foi a primeira intenção dele, mas é visível. Algumas coisas estão conectadas do começo ao fim e provavelmente estavam no esboço da história, outras... em vez de apenas serem detalhes relevantes para aquele momento, Gilligan acabou deixando correr a narrativa, e para não ser a mesmíssima ele decide tirar o máximo proveito das situações e detalhes. Logo você vê uma situação que não gera apenas mais outra em seqüência, mas ela cria ramificações que seguem em caminhos paralelos, mas diferentes. A recina, um veneno que Walter produz, se apresenta primeiramente como solução, para em seguida acabar com o psicológico de Jesse, depois faze-lo ficar ao lado de Walter, depois contra, e enfim ser uma última arma utilizada para matar os resquícios de seu trabalho, sua marca. Ou a morte de Tuco que coloca Walter no controle do tráfico, faz o Tio Salamanca odiar Walter, dois irmãos caçarem-no, criar uma dívida com Gus, aleijar Hank, criar o ódio do Cartel à Gus, gerar um massacre, fazer o Tio ser torturado, e depois causar a morte de Gus. É como matar vários coelhos com uma cajadada só. E a cada situação retirada de uma única morte. As ramificações que se criam se desenrolam, criando uma grande teia interligando cada ponta.
            Assim, a mescla de arquitetar a história e tirar máximo proveito das situações seqüenciais – ser como um jarneiro e ver o que cresce dali –, acaba trazendo uma sensação de prazer por se ver tudo conectando com maestria.

            Fotografia e Narrativa
            Por último, falarei da narrativa. Na literatura ela aborda um campo vasto, mas que é mais comum de entendermos e analisarmos, ou de até percebermos. No cinema ou na TV há uma narrativa e ela também é vasta. Entretanto, o que muitos deixam de lado é a câmera. Da fotografia. Para mim ela é uma narradora que dá voz ao diretor e criador Vince Gilligan. Como dito antes, a câmera acaba mostrando a cena inteira, sua totalidade, não deixando de mostrar nada, não causando nenhum mistério. Essa é uma das formas narrativas. Outra, é como as situações são mostradas. Você já deve ter percebido como a série valoriza o silêncio. A ausência de som na vida cotidiana da casa de Walter, da família tomando café, de um passeio de carro. Por um momento é um silêncio até que constrangedor. Entretanto, os silêncios mais memoráveis são aqueles que se segue após um momento de Boom. 
Isso é, quando Tuco sequestra Walter, ele sai de casa, observa Jesse, vê o cara apontando a arma e chamando-o para dentro, e sem nenhum barulho, sem hesitação alarmante, ele entra e o carro sai dali em uma velocidade baixa, calma e serena. Outro momento é quando Walter desaparece por alguns dias, quando Skyler já sabe de tudo, ele volta para casa, ela pergunta se ele ta bem,e ele responde que sim, e só. Ele sai andando para entrar no carro e câmera acompanha de perto seu rosto. Nessas duas cenas a câmera, ou seja, a forma da apresentação da história, não se alarma, não fica trêmula, nem corrida, nem acelerada. Ela continua a mesma. E isso, pode acreditar, quebra nossas expectativas sem percebermos. 

Estamos tão acostumados de ver uma narrativa que se enquadra ao momento da cena, que quando veremos algo anormal na história, e esperamos uma filmagem anormal, ela continua a mesma, quase como se aquele momento alarmante e desesperador é completamente comum, mesmo você sabendo exatamente que não é. A utilização desse método não é usado o tempo inteiro, e em certo momento, para o final de Breaking Bad, ela acaba mostrando que realmente essas coisas desesperador se torna o cotidiano de Walter. Entretanto, essa fotografia se mantém contínua ao longo dos episódios, juntamente com o silêncio e a totalidade da cena. E isso, meus amigos, é uma narrativa tão boa e imperceptível à primeira vista, que é mais um dos motivos de a série ser tão boa. 


Ainda pode se falar muito sobre Breaking Bad. Há blogs e mais blogs falando sobre a série, suas visões e pensamentos diferentes. Há ainda a excepcional atuação dos atores, o desenvolvimento dos personagens, a trilha sonora, a rigidez em que é apresentada a parte química da série, e muitas outras coisas. Breaking Bad ainda será muito falado e alvo das críticas. Muitos ainda assistirão essa série e darão razão a nossas opiniões. Eu decidi apresentar esses pontos escolhidos, debater um pouco mais para abrir mais alguns leques para os fãs, ou fazer as pessoas começarem a assistir. Queria também revelar mais um pouco da genialidade da série e mostrar que ainda se pode descobrir muito mais coisa. Mas por hoje, caros leitores, é só. Deixo por último uma pequena referencia à outra série tão amada quanto....







































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No episódio 11 da 3° Temporada, quando Walter decide lavar seu dinheiro junto com Skyler, Saul sugere um lugar, que ao seu olhar, é maravilhoso para lavagem de dinheiro. Ele olha para o casal e diz animado: Wait for it... Laser Tag. Alusão clara a famosa frase de Barney em How I Met Your Mother, com a mesma entonação dele, além de seu lazer preferido na série \o/ Lembrando também que os dois, tanto Bryan Cranston (Walter White) quanto Bob Odenkirk (Saul Goodman), atuam em How I Met, e durante a 3° Temporada de Breaking Bad, ela ainda estava sendo rodada.





O Grande Massacre de Gatos - Os Bardos


AVISO: as linhas seguintes conterão histórias bizarras e que podem abalar o seu psicológico. Caso sinta náuseas, empolgação ou uma crescente curiosidade afaste-se o mais rápido possível, pois a História é viciante e pode fazer mal ao seu círculo de amizade.

            Provavelmente serei um louco ao iniciar essa coluna. Os Bardos será um punhado de textos que apresentaram livros que contam histórias. Para melhor entendimento: Histórias mesmo, essas conhecidas no senso comum com "H" maiúsculo, que é costume falar que são “reais” e que aconteceram. Entretanto não são histórias contadas em livros de história dos colégios e escolas. Não, aqui serão livros conhecidas em grande parte apenas pelo círculo acadêmico, mas que vocês logo perceberão que deveriam chegar às pessoas que não tomam história como seu ofício.

            Mas por quê? Robert Darnton, o historiador desse primeiro texto, tem uma ideia simples, mas sincera e verdadeira, sobre contar histórias. Ela não deve apenas ser escrita de historiador para historiador, de acadêmico para acadêmico. A história está aqui para nos trazer conhecimento, e negar ela para outros que não querem ser historiadores é quase uma blasfêmia. Esse é o motivo dessa coluna, e a cada livro que eu apresentar à vocês espero que percebam como a história é interessante, pois se acham que ela é apenas aquelas que estão nas escolas é ignorar talvez a melhor parte dessa matéria. Não culpo vocês se tem essa noção, apenas o estado do ensino hoje em dia, que acreditem ou não, é quase o mesmo de um século atrás. Esse texto também não será como uma resenha ou análise acadêmica, será para você que apenas quer conhecer um pouco mais de história e buscar inspiração.
           
            Agora, para começar bem, o livro escolhido é O Grande Massacre de Gatos, do historiador estadunidense Robert Darnton. Suas pesquisas se voltam ao século XVIII na França. Sua obra contém seis ensaios históricos sobre aquele período e trazem os temas mais diversos, exóticos, peculiares e bizarros. Darnton tem a ideia de que se você tropeçar por alguma voz (documento) do passado e não entende-lo, por exemplo uma piada da época, é porque você encontrou um acesso para entender um pouco como aquelas pessoas pensavam, entendiam e viam seu mundo. Esse é o objetivo do livro.

            Então você se vê frente a uma narrativa de um massacre de gatos na metade do século XVIII, de artesãos que esmurravam, cortavam aos meios, batiam com pedaços de ferro, quebravam as espinhas e enforcavam gatos. Amarravam eles em sacolas e jogavam na fogueira, botavam fogo nesses animais e saiam atrás numa brincadeira. E o “pior” de tudo é que eles achavam aquilo engraçado, hilariantes, e jamais esqueceriam o feito como algo marcante.
Agora você pensa – O que essas pessoas tinham na cabeça?
E eu pergunto a vocês – Por que Darnton traz essa história verídica que nos horroriza tanto? Qual seu objetivo? O que isso significa?
Eu respondo logo em seguida – Ele quer mostrar a você como aquelas pessoas do passado, cada um à sua época, não são como nós, não pensam como a gente, além de verem seu mundo completamente diferente do nosso.
Aquele massacre tem um significado próprio para aqueles artesãos, que para nós é impossível sentirmos, mas não impossível de termos uma ideia da graça daquele massacre. Essa resposta eu deixo para vocês descobrirem, afinal, será bem mais prazeroso com a leitura. Darnton utiliza de uma vasta pesquisa sobre o período, e a simbologia que animas, principalmente o gato, denotavam naquela sociedade, o estado que os trabalhadores e artesãos viviam, assim como seus assistentes e os mestres. O historiador remonta e nos mostra como era as experiências daquela vida e como aquilo explica o motivo de massacrarem gatos e rirem com tudo aquilo. Hoje em dia é impensável alguém sair matando gatos, ou pelo menos a grande maioria das pessoas vão condenar o ato, mas naquela época? Nem um pouco...
            Darnton não para por aí. Outro capítulo conta a história da vida de um inspetor de policia francês, cujo seu trabalho é fiscalizar escritores, suas obras e a venda delas. Basicamente o comércio livresco na Paris do século XVIII. Você descobre que Hémere montou um quadro com o perfil de grande parte dos escritores da época, desde Rousseau, Voltaire, até aqueles que nunca conheceremos na vida. Ele pesquisou suas histórias, suas obras e com tudo pode fiscalizar a produção “intelectual” do período. Montou pirâmides etárias, quadros de profissões e de qual “Estado” viviam (lembrando daqueles três Estados do Antigo Regime: clero, nobreza, e o restante). Talvez você se sinta maravilhado apenas por descobrir que isso realmente existia naquela época, que realmente a literatura e as ideias podiam ser extremamente perigosas, tanto que o governo francês se preocupava tanto a ponto de destinar muita verba para perseguições de escritores, inclusive em outros países. No entanto, Darnton não para por aí, ele nos mostra como que cada relatório desse inspetor sobre os escritores (cerca de 500), revela como uma forma de ver o mundo, e principalmente a literatura e os escritores daquela época. Também conhecemos como Hémere classificava, esquematizada e organizava a vida social e cultural da sua época.

            O historiador, tenta em sua obra, trazer o máximo de perspectivas daquele período na França; e com os temas mais extravagantes e distinto. Por exemplo: o que dizer de um leitor de 1750? Para a História, o trabalho de remontar a experiência de leitura do passado é algo extremamente difícil. Em relação ao geral, poucas pessoas liam no século XVIII. Muitos eram analfabetos e não esqueçamos que grande parte da população era camponesa. Agora, como saber como uma pessoa lia um livro? Como saber como ela identificava os mistérios e o sentimentalismo do livro? Como saber o que ela procurava num romance ou ensaio? Para que ela tinha olhares? É aí que Darnton conta a vida de Ranson, um burguês relativamente confortável financeiramente que era apaixonado por ler, principalmente por Rousseau e suas obras. Saber como uma pessoa lia um livro pode ser a chave para saber como ela lia (via) e dava sentido ao seu mundo. Então Darnton estuda as 47 cartas que Ranson enviou a uma grande editora suíça da época, todas haviam encomendas de livros e com isso podemos saber alguns dos tipos de obras que essa pessoa lia. Assim o historiador conseguiu encontrar um livro sobre  leitura em que Ranson havia comprado tanto para buscar práticas de leitura quanto para ensinar seus filhos, e analisando essa obra, o historiador pode ter uma noção de como as pessoas liam e buscavam o sentido no texto. Mas o que chama mais atenção é que esse burguês realmente mantinha uma conversa com o editor, contava de sua vida e principalmente falava sobre Rousseau e como amava suas obras. A partir disso, sabemos o poder da literatura e como ela realmente mudava o mundo dos leitores, elas não apenas tiravam um sentido ou uma “moral” das histórias que liam, mas a partir dos livros elas moldavam o próprio mundo. E sabe de algo mais? Darnton mostra qual mundo “literário” era esse.

            Acho que estou deixando me levar demais pela paixão dessas narrativas.  Os outros ensaios históricos nos esclarecem um pouco mais sobre os contos de fadas. Sabe os irmãos Grimm, Charles Perrault e esses outros famosos pelos seus contos como Chapeuzinho Vermelho, João e Maria? Então, Darnton conta um pouco do desenvolvimento desses contos, e como eles derivam das fábulas orais que os camponeses franceses contavam a beira da fogueira na noite. Ele traz o mais próximo desses contos originais, e como eles trazem o entendimento que os próprios camponeses tinham de suas míseras vidas violentas e sem esperança. . 
Darnton também mostra como esses contos orais franceses se desenvolveram e foram moldados por outras culturas, como alemã e inglesa. Ele mostra um pouco da face de cada uma, podendo nos mostrar a peculiaridade dos camponeses franceses e como pelo contos eles expressam seu mundo. Temos também a história da enciclopédia de Diderot, que Darnton não apenas mostra como ela foi desenvolvida, ampliada, e da onde a ideia e as inspirações surgiram para seus autores. Ele mostra como a enciclopédia foi um projeta puramente iluminista, um mapeamento do conhecimento e do mundo. Como que os autores viam essas classificados e ordenamentos das ideias e das informações da França do século XVIII. Há também a história de um burguês, que tão amante de sua cidade, decide escrever sobre ela para visitantes. Darnton nos mostra quem realmente é o burguês do Antigo Regime (sabe aquela coisa: onde vivem? O que comem? Como dormem? Rsrsrs) E disso, como ele via categorizadamente a sua sociedade, porque e como se considerava um burguês, e como podemos ter certeza disso.

            Enfim, depois de longos devaneios meus, o que eu tenho para dizer desse livro é que ele pode mudar o que você pensa da História, do passado e das pessoas que viveram nele. Darnton sempre, em toda sua produção histórica, teve o total cuidado de deixar seu texto claro para todo tipo de público. Ele é um verdadeiro bardo, que nos deixa curioso e controla com maestria seu público; sua voz nos encanta e ficamos presos à narrativa contada diante da fogueira. Sua escrita é cativante e tem um certo humor que dar prazer na leitura. Ele realmente veste o manto de historiador, daquele de mergulhar nos documentos empoeirados e trazer à luz histórias exóticas e cativantes, além de conseguir nós transportar àquele mundo distante no tempo, com pessoas estranhas, de pensamentos, experiências e vidas diferentes.
           

            Darnton tem uma grande produção historiográfica. Como dito, seu tema de pesquisa é a França do século XVIII – sua intelectualidade, suas simbologias e seus “moradores”. Sua atenção se volta à questão dos livros, do seu comércio, de seus autores, suas vidas e experiência. Seu objetivo é tentar remontar aquele mundo em suas múltiplas faces e perspectivas, e mostrar que a História não é apenas de reis, políticos, imperadores, generais, intelectuais. Não são apenas repletas de fatos e datas. Em outro livro, O Beijo de Lamourette, Darnton apresenta em um dos seus capítulos os intermediários do comércio livresco: os livreiros, editores, comerciantes, transportadores (imagine como era difícil atravessar uma fronteira montanhosa com uma imensa quantidade de livros ilegais). Ele busca essas histórias peculiares e bizarras para mostrar que, além de revelar a nós outras faces históricas, a história não se faz apenas aos pés de “grande ícones”.


Trilogia O Trono do Sol, o Mundo Diverso - Literários


Desde que eu comecei a ler O Trono do Sol, há uns três anos, muita coisa mudou. Li muitos livros, exercitei minha percepção e análise, e eis que em 2017 eu termino a trilogia, e ele acabou tendo um gostinho um pouco diferente. Aqui você lerá uma análise longa, repleta de coisas sobre os livros, seu mundo, seus personagens e a história. Entretanto, não haverá muito spoilers, nem muito sobre a história; alguns, claro, não terá como evitar, e aqui já peço desculpas... Mas, vamos lá!
           

S.L. Farrell escreveu sobre um mundo enorme. E fico ainda mais feliz quando descobri que há mais livros deles que se passam nesse universo. Ele é repleto de lugares e cidades grandiosas, de impérios, reinos, guerras, conflitos religiosos, magia e ótimos personagens. No entanto, o que mais vale a pena desse mundo é por sentir que ele realmente é um mundo. Desde o começo da história nós nos sentimos imersos nele. Algumas obras de fantasia não conseguem trazer tal sensação, mas Farrell consegue e muito bem. Ele criou títulos, posições, línguas, magia e uma religião nova. O vocabulário inventado não é tão vasto nessa trilogia, mas sem dúvida é de grande importância para fazer você entrar nesse universo. Percebemos isso quando ele não precisa de explicações basiconas para te mostrar o que é cada coisa. O autor escreve de uma forma que com a nossa própria interpretação já sabemos o significado. E caso pareça um pouco perdido, no final de cada livro há um apêndice com informações extra, tipo de status social, o começo do livro sagrada e da criação do mundo, além de uma lista de personagem. Qualquer coisa só consultar.

            Mas aí você ainda tem alguns duvidas e que saber um pouco mais, então se pergunta: o esperar desse mundo? Mágicos, feiticeiros, “sacerdotes”, assassinos, pintores, guerreiros, reis, ateus, mendigos, sádicos, e mais um punhado de coisas que funcionam no enredo. Estão aí todas as coisas que queremos numa bela história de fantasia, e realmente não há muito mais o que pedir nesse ponto analisado. Ah! Claro, não posso me esquecer de Nessântico, a cidade-personagem da história, onde tudo gira em torno. Onde abriga o famoso Trono do Sol, que brilha misteriosamente sem ajuda de ninguém. Ela é a pérola, o prêmio, o grande título, a vitória definitiva. É ela que faz tudo acontecer e também sofre as piores consequências.

            Um dos pontos fortes da história está nas questões religiosas que são apresentadas. Sempre é um prato cheio termos uma religião bem desenvolvida na história e é isso que ganhamos com a leitura. Aqui, originalmente somos apresentados aos numetodos – que não acreditam em Cénzi, o deus dos Domínios, e em nenhum outro. Acreditam na razão e que só ela poderá dar as melhores respostas para vida. Desde o começo da história há o embate entre eles e a fé conzenciana, e você verá enforcamentos e traições. E ainda mais, a magia do mundo de Farrell existe, mas apenas os tênis, padres e servidores da religião, podem usar por meio de cantigas e gestos com as mãos. Os numetodos criticam justamente isso, falando que não há necessidade de uma fé para usar a magia, e que há um método preciso para utilização dessa... Então, esperem muitos conflitos, e provavelmente você escolherá um lado.

            Apesar de tantos prós nesse mundo, tem um outro motivo que ele particularmente encanta. Ele é muito próximo do nosso. Não há como ver Nessântico sem ver Paris, o centro do mundo no século XIX (E a propósito, o autor se inspirou e muito na cidade e na história de Paris). Ou sem ver os Numetodos como ateus. Ver as termologias Ocidentais e Orientais como nossas próprias designações. E por isso trás um encanto especial, um mundo realista, pé no chão, pintado de cinza como George Martin falou. Se você gosta desse tipo de fantasia, nada “fora da caixinha”, mas que traz sempre surpresas para nós e para os próprios personagens, ele livro agradará bastante.
           

            Puxando as surpresas para já, falarei da narrativa e a história. Como é um mundo bem bolado e planejado, não se assuste, mas o enredo demora um pouco para engrenar. Farrell optou por apresentar bastante coisa antes, para que você não se perca no meio do livro. Então poderá parecer chato no começo, mas continue, apenas continue que você será gratificado com reviravoltas, traições, assassinatos e guerras. E com esses pontos fortes, a sua narrativa apenas melhora as situações. O autor traz uma narrativa meio cinematográfica, sempre começando os capítulos com belas visões, pontos de vistas diferentes, quase como se escolhesse onde a “câmera” começaria a rodar. Então se deixe imaginar linha por linha a história, leia com calma e apreciando as palavras, que você terá a sua frente uma história encantadora. Entretanto, não espere algo inesperado; é a mesma formula de reviravoltas, traições, causas sem esperanças e voltas por cima. Inimigos que virão amigos e amigos que virão inimigos. Nesse ponto, Farrell tenta se aproximar ao máximo das nossas vidas cíclicas, utilizando do trágico para pintar as coisas de cinza.

            Eu considero essa narrativa cinematográfica o ponto alto e algo que vale a pena de ser lido e se ter na estante. Aos escritores, faz com que pensamos em formas de apresentar as cenas, fugindo dos clichês simplistas. Mas também a história, apesar da mesmíssima, também é algo bem arquitetado e bom de se ler, principalmente para conhecer os artifícios desse mundo em conflito e seus ligamentos. É uma viagem direta àquele mundo.
            Mas se o mundo é tão grande assim, então é certo que veremos nos livros os mais vastos e diferentes personagens? Sim, é isso mesmo. Todos eles tem um simbolismo nessa história, alguns mais outros menos. Temos também algo muito bem vindo nos tempos de hoje: personagens femininas fortes, e elas são várias, recheiam o mundo e as fazem de grande peso em todas as camadas da história e daquele mundo. Elas em nenhum momento são retratadas como sexo frágil, nem os próprios personagens acreditam nisso. Pelo contrário, há um certo louvor a elas; as rainhas, mães de famílias, sacerdotisas estão estreitamente ligadas no jogo político, social e religiosa e tem grande espaço para desenvolvimento. Mas então você se pergunta se elas são bem desenvolvidas... e eu responde que vai depender do que você espera. A narrativa é em terceira pessoa e cada capítulo acompanha a perspectiva do personagem, então não teremos um aprofundamento psicológico: os personagens, tanto masculinos quanto femininos, são apresentados mais do ponto de vistas dos outros, não deles mesmo (ou pelo menos é muito mais interessante a perspectivas dos outros). É frente à própria perspectiva do personagem que o desenvolvimento dele aumenta em qualidade.

            Por exemplo: um personagem pode aparecer muitas vezes, mas nada se fala muito dele. E seu capítulo não desenvolve nada mais que apenas a história. Então ele sim é um personagem “papelão”. Devo informar que há bastante desses, e de certa forma foram pouco aproveitados na trama, mas em compensação há personagens que nos chama atenção desde o começo, como Sergei, ele tem um Nariz de Prata e é um viciado em mutilar e fazer pessoas sofrerem. E ainda melhor, ele é praticamente o guardião de Nessântico. Sua relação com o numetodo Karl é riquíssima e sincera para nós. Criamos afeição aos dois.
            Outra coisa bem recorrente na história são as relações dos personagens, em que o primeiro conhece o terceiro, e o terceiro conhece o segundo, que não faz idéia que é o primeiro conhece o terceiro. Eu sei, eu sei, ta confuso, mas basicamente você sabe das relações dos personagens sem eles saberem delas. Mais ou menos como novelona.
           
Essa escolha de muitos personagens, capítulos POV acaba por fortalecer a diversidade desse mundo e, de livro para livro, trazer um dos principais pontos da trilogia, a passagem do tempo. A sensação de conhecer muitas pessoas, essas descendentes daquelas, amigos dos que morreram, esposas e maridos que perderam seus amados, juntamente com as décadas que se passam livro após livro, faz criar a sensação de que as coisas não são e jamais serão as mesmas. Personagens morreram e agora são lembrados, ou até foram esquecidos. E o que sobrou de tudo são cacos e desordem, sonhos e desejam... mas aqueles, que tanto amamos e acompanhamos linha por linha, já não estão mais lá. No terceiro livro, por exemplo, a memória de um personagem, tão importante no primeiro, já nem é citada. E outro, se é, é quase como uma nostalgia.

            É esse a principal lição do livro. Não importa quem viva e quem morra, não importa as guerras e as relações pessoais e religiosas, elas nunca mais estarão “aqui”, mas Nessântico, essa personagem-cidade, sempre estará. Esse monumento, quebrada, trucidada, renovada, sempre estará vivo.

            Agora você chegou até aqui e gostou da trilogia, quer comprar. Você mediu os prós e contras, e decidiu que será uma boa história para se ter na estante. Pare por aí. Calma, as coisas ainda não acabaram. O Trono do Sol é tudo o que eu disse aí em cima, há coisas que eu não gostei e mais coisas que eu amei, mas não cabe a mim revelar spoilers de mais personagens ou da trama – vai por mim, nisso ele é riquíssimo. Entretanto, a sensação de terminar é que ele poderia ser muito, muito mais. Esse mundo vasto poderia ser bem mais explorado e desenvolvido. Poderíamos ter personagens mais marcantes e realmente incríveis (apesar do propositor é trazer personagens críveis, ah, vocês me entenderam). Poderíamos ter mais magia – mas nesse ponto eu acredito que seja opção do autor, afinal, a cada livro os próprios personagens descobrem mais sobre sua magia –, mais guerras, mais religiões, mais deuses. Você lerá e pensará da mesma forma. Há grande potencial em tudo ali, e é por isso que no começo desse texto eu disse que fico feliz por saber que há mais histórias sobre esse mundo, a esperança de ver tudo bem aproveitado aumenta. Até a parte política do livro, as relações entre impérios, reinos e províncias, rebeliões e guerra fronteiriços podiam ser mais explorados.

            É uma boa história para se ler. Se você é um daqueles fãs de fantasia política, guerras de impérios e personagens bem diversos que mostram toda a pluralidade daquele mundo, você terá. Se você procura universos para imergir e viver, você também terá. A história é fechada com o final, há noção de evolução e ela passa um recado. Mas talvez, e isso é bem provável, você termine com a sensação que poderia ser escrita a mesma história, mas bem mais elaborada e desenvolvida. Você terminará, mas sentirá que faltou algo mais.
           

            Agora sim você poder correr comprar, prometo que terá uma bela de uma viagem por Nessântico, conversar com seus personagens, praticar um pouco de magia, batalhar em algumas guerras, quase morrer, ver ótimas explosões, mandar assassinar alguém, entrar numa cela e ver prisioneiros sendo torturados, criticar, fugir... E depois de tudo: acordar com um pouco de saudades. 


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Quero pedir desculpas por não ter muitos desenhos diversos nesse texto, por mais que seja uma boa trilogia, não há muitos desenhos sobre a história nem dos personagens. Desculpe :/


Todos os Nomes do Mago Saramago - Literários


Tudo que se disse, tudo que se diz e tudo que se dirá sobre os livros de Saramago sempre será pouco. Mesmo assim é prazeroso falar de suas obras, tão prazeroso quando lê-las. O melhor é debater sobre elas, ver suas múltiplas faces, narrativas, personagens. Tentar entender o que tem ali por trás, pois a única certeza que se tem é que não será algo simples para olhares despreparados.
Sei disso porque eu mesmo ainda tenho olhos sedentários em relação as suas narrativas, e a maior graça de ler cada uma é saber que tem algo lá que eu não olhei, e a releitura sempre será um prazer, tal qual as horas que você fica com aquilo na cabeça tentando desvendar o quebra-cabeça, relembrando as minúcias que podem ou não ser importantes para o bom entendimento... mas, depois de algum tempo, a primeira coisa que posso dizer sobre como entender um livro, principalmente esse em questão, é pelo título.

Publicado um ano antes de Saramago ter ganhado o Prêmio Nobel de Literatura, em 1998, Todos os Nomes é um daqueles romances em que o título já diz tudo que você precisa buscar na obra. A história por si só já vale a pena, de como um funcionário com seus 51 anos, ao trabalhar na Conservatória Geral de Registros Civis acaba por empreender uma busca à uma mulher desconhecida. Conheceremos esse personagem como Sr.José, e apenas ele é nomeado na obra. O restante é sempre designado com seus títulos, cargos ou simples característica como velha. Eae paramos por alguns instantes. Isso quer dizer algo, não é? Se o título é Todos os Nomes, porque apenas esse personagem é nomeado? Mas continuamos seguindo... A Conservatória é, de fato, o lugar onde todos os nomes habitam. É o lugar em que tanto morto ou vivo estão registradas. É lá, como a própria obra diz, que faz as pessoas existirem. Mas é registrado coisas simples, apenas o nome das pessoas, pais, data de nascimento e/ou morte.
Acontece que o Sr.José trabalha lá a metade de sua vida. Fora isso, mais nada sabe-se dela. É um funcionário exemplar, trabalha certinho e vive (para simplificar tudo) numa pequena casinha ao lado da Conservatória, em que uma porta dá acesso direto ao lugar. Fora essas informações, sabemos que ele também tem um hobby: colecionar reportagens de pessoas que foram e são famosas, todo tipo de pessoa que aparece em jornais e tem seus momentos à vista de todos. Nesse percurso, e para não se revelar muito sobre a história, vê-se frente a informações de uma mulher completamente desconhecia, e por uma ânsia de conhecer esse alguém que nunca foi ou será famosa, saber como e onde vive, como é de aparência e de vida, ele parte numa jornada investigativa que não revelará propriamente dito essa mulher desconhecida, mas sim a consciência que esse funcionário de nome Sr.José cria em suas buscas.


E como isso é lindo, revelador; reflete a nossa própria existência. Acompanhando essa busca, vamos percebendo como o personagem adquiri perspectivas de vida, e a história vai sendo construída de seu ponto de vista, sendo ele ganhando cada vez mais espaço em detrimento do narrador. Assim, vamos percebendo algumas das metáforas que Saramago tece com cuidado ao longo dos livros: aqueles nomes conservados na Conservatória Geral. Eles significam algo. A principio vemos que há uma divisão entre mortos e vivos. Os vivos são guardados numa gigantesca estante que sobe ao teto, tão alto que passa a escuridão predominar lá em cima. Os mortos estão distribuídos por tempo de conservação, e está em outro canto da Conservatória. Ele é descrito como um labirinto, e para não se perder lá dentro, é preciso usar o Fio de Ariadne (o segundo nome que há na história). Acontece que com o tempo, percebemos que essas pastas vazias, de pessoas desconhecidas, cujo as informações apenas estão o nome, data de nascimento e morte, não fazem sentido estarem vazias, e é essa busca pela mulher desconhecida que faz a nos perceber isso. É a busca do Sr.José que dita o ritmo dessa narrativa, e é ela que faz os sentidos e significados ali mudarem.
Não é uma grande epopeia ou épica busca que é empreendida. A jornada é interna e imperceptível para Sr.José, mas para nós, leitores, é... De repente vemos a nós nos questionando, conversando com nós mesmo, vendo as possibilidades dos acontecimentos, tentando contornar os problemas ou antecipar os limiares. Vemos nós instigados a buscar algo que não sabemos como acabará, e o livro volte e meia nos mostra que sempre será algo que não pensávamos.
E no final percebemos que essa busca não revela apenas o Sr.José, mas aos poucos vai mostrando como somos nós nessa sociedade contemporânea, mostra um jeito heroico de enfrentarmos essa sensação de nomes vazios que até então não parecem nada mais que nomes, mas que descobrimos que são indivíduos que também vivem e tem seus afazeres, vontades, pecados e virtudes.


Não se terá muito mais o que dizer, pois é um livro que espero que vocês leem e tirem as suas reflexões. Fiquei um bom tempo tentando analisar da melhor forma possível tudo ali que tem na obra, degustando com prazer as palavras, as frases, as perguntas que Sr.José levanta e como as responde. Essa é uma das mágicas desse livro e de Saramago, há tanto ali, que qualquer parte que você já deguste, você sentirá satisfeito... mas não deixe cair em tentação, você tem que abrir espaço ali na sua mesa, jogar os livros e as anotações pro lado, pegar uma folha em branco e fazer como um quadro de análise, juntando informação e traçando ela. Claro que isso não é necessário, entretanto experimente; aí você verá coisas que não tinha pensado. As menores pistas sempre significam algo nesse mapeamento que você fará... Por um motivo. A narrativa é como em grandes e pequenas parábolas que sempre tem o que dizer. É como se Saramago adicionasse parênteses atrás de parênteses, entrando em cada tema especifico, se aprofundando, e quando você acha que ele começará a contar outra história, ele volta. Aí você se pergunta, porque perder tempo fazendo isso? E então, algumas páginas para frente, você terá a sua resposta, e geralmente ela é mágica.

Com uma narrativa instigante, reflexiva, desafiadora, estive lado a lado com o Sr.José nessa busca, conhecendo um pouco mais dele, dos outros e dessa mulher desconhecido. Descobrindo porque empreendamos as nossas próprias buscas, que aos olhos de outros não detém sentido, mas que para nós, é o que sentimos ser necessário.

            Sempre terá o que dizer sobre José Saramago, e isso não é pouco.

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Como vocês podem ver, a edição que eu li está nas Obras Completas no volume 3. Até o momento, temos 4 volumes de seis das obras de Saramago. Todos, e quando digo todos, é todos que valem muito a pena.

A Eterna Guerra Épica: Personagem e História


Hey, chega junto! Vamos conversar um pouquinho. Quero falar a respeito de algumas coisas interessantes. Uma discussão antiga!
 Quão velha é uma história? Quão velhos são os contadores de história? É meio difícil definir, mas gosto da ideia do Kvothe, em que, quando se ascendeu a primeira fogueira, havia contadores de história ( e talvez antes) para enriquecer suas tribos. Mas, então, o que eles contavam das histórias? As pessoas de tempos remotos pareciam se embebedar nas narrativas fantásticas para buscar respostas e explicar questões. Buscavam refúgios psicológicos, entretimentos, histórias cujo seus sangues ferveriam. As narrativas fantásticas criavam pensamentos, forjavam homens e mulheres, crianças e jovens. As histórias e suas narrativas faziam as pessoas acreditarem em credos, agirem de acordo com modos e costumes específicos. As narrativas então inseridas nas pessoas assim como as pessoas permeiam as narrativas.


Eae volto à pergunta, o que eles contavam? Para ser mais claro, contavam sobre heróis ou sobre histórias? Personagem ou história? Esse é sem dúvida uma grande questão aos escritores modernos, fruto de muitas hesitações e principalmente da percepção que os escritores têm de seu mundo. O que é priorizado, o personagem ou a história? Os eventos que moldam os personagens ou o personagem que molda os eventos?
            Liev Tostói em Guerra e Paz mostra como a História é o grande motor que gera tudo. Os eventos são os moldadores, e não é de estranhar que quando se volta de uma guerra a pessoa está mudada. Separado por algumas décadas, Milan Kundera em A Vida Está em Outro Lugar vê também a História como  uma grande força que atua entre as pessoas, que as mata, faz elas mudarem assim como nascerem ou renascerem.


            Temos então um Patrick Rothfuss em pleno século XXI mostrando em O Nome do Vento que Kvothe é o grande moldador da história. Tudo que está a sua volta muda, por um acaso ele mata um rei e isso gera uma guerra que arrasta os mais jovens para a esperança e a morte.


            Deixo claro que a história que estou querendo mostrar não é apenas a História com letra maiúscula, aquela que temos nas escolas e em livros didáticos. Ela também é a história do livro, o enredo, sua narrativa própria. Alguns escritores como Gabriel García Márquez desenvolveram em seus livros a importância da história, e apesar dele seguir em Cem Anos de Solidão a estirpe dos Buendías, eles são arrastados ininterruptamente pela solidão de uma América Latina.


            Temos também uma grande crítica a esses tipos de histórias... Lembremos-nos do Clube da Luta de Chuck Palahniuk em que, diante das maiores adversidades, eles estão lutando para destruir a história, tornarem-se os protagonistas, não mais os peões do tabuleiro.


            E agora, o que resta disso? Qual a maior importância? Personagem ou história? Um escritor moderno se vê encruzilhado nisso, a criação e construção de um herói, sua vida e os eventos que vive ou a criação de uma história empolgante que não tem o personagem como o principal ponto. Às vezes histórias são os próprios personagens, em alguns casos cidades como Balzac retrata em A Comédia Humana com sua Paris ou O Trono do Sol de S. L Farrel com sua Nessântico. Adentrando no gênero fantástico, temos um mar de livros, histórias e personagens, que dão inúmeros exemplos dos dois lados. No caso da história, muitos autores de fantasia adoram e amam de coração explorar o seu mundo, explicar ele aos outros, mostrar pedacinho de contos daquela terra, raças, heróis e animais fantásticos. Um grande exemplo é Tolkien. Muito do seu gosto de escrever parece estar em envolver um multiverso na história, colocar tudo que desenvolveu de seu mundo em pequenas pitadas no que é O Senhor dos Anéis. E também não ficamos surpresos com a grande empolgação de seus fãs que às vezes preferem O Silmarillion.


            Outros autores querem trazer os personagens. Esse sim tem o poder de mudar as coisas; outro grande exemplo disso é Brandon Sanderson em Elantris e em Mistborn. Sinto que para ele é um prazer escrever sobre os personagens, e muitas vezes nossas ligações se estreitam com suas criações. Por isso acabamos chorando.


            Em contraste temos Isaac Asimov com seu clássico Fundação. A graça nessa história não está tanto em sentirmos os personagens. Eles não têm nenhum controle da psico-história. Tudo já foi previsto, o imenso caos que que imundaria o Espaço. E o que realmente nos empolga é ver os eventos acontecerem, os personagens sofrendo a ação do tempo e das grandes transformações que percorrem a galáxia.


            Apresentando esse debate com grandes autores e suas grandes histórias parece apenas embananar todo esse texto aqui. Parece que não poderemos chegar há algum lugar.  Mas, talvez para criarmos alguma ideia básica, seja preciso embananar mais nossas cabeças.
            Essa grande questão talvez tenha surgido pelas perspectivas criadas, isso é, a visão que o autor quis colocar em sua narrativa. É como mostrar algo, mas devidamente sabido que livros podem ser contados de formas diferentes. Personagem e história seriam a mesma coisa, e uma é apenas perceptível quando se decide contar uma narrativa. Um personagem tem sua história, ele sofre pelos eventos que passou na vida ao mesmo tempo em que passa a levar eventos a outras pessoas. E assim num efeito de teia de aranha, em trocas mútuas. Sem história não temos personagem, sem personagem não temos história. Um é o outro, e nenhum existe na ausência do outro.


            Se quiser pensar numa forma literária, ela é como o protagonista do Clube da Luta, estão no mesmo corpo, mas ora o Taylor assume as rédeas das coisas, ora o personagem sem nome vem à tona. E aos poucos vamos entendendo que os homens não estão brigando com a história, eles estão brigando contra outros homens. Que as mulheres brigam contra outras mulheres. Pois, quem faz as histórias também são homens e mulheres, e eles brigam no clube da luta. Histórias brigam com personagens e personagens brigam com a história, incessantemente uma luta que perdura por milênios, cuja única importância que podemos dar a elas agora é aproveitar as histórias e os personagens.