História e Literatura: parte 1 - Ensaios de Delírio




História e Literatura, o que elas têm em comum e de diferente? Essa série de ensaios que relacionam esses dois campos de escrita tem o intuito de apresentar e introduzir-los a um assunto importantíssimo, apesar de parecer não ser. Serão textos simples, diretos, e espero que consigam pegar o fio da meada. Deixarei todo o academicismo de lado para apenas apresentar o tema a vocês. Uma ou outra vez vocês verão eu falando de alguns historiadores, críticos literários e romancistas;  mas será apenas isso. Quero é clarear o assunto para vocês, não confundi-los mais. Por último, esses ensaios não seguiram uma estrutura certinha com apresentações, introduções e etc. Será apenas uma conversa e quero que desfrutem o máximo dela.
           
            Talvez a coisa mais óbvia a se dizer é que um romance conta uma história, há personagens, uma trama, enredo, algumas lições a apreender, conhecimento envolvido, aventura, mistério, narradores incríveis, uma prosa suave e gostosa. Até aí tudo bem, mas o que difere o “contar uma história” da própria História (letra maiúscula por ser a matéria) propriamente dita? Na Academia não falamos “contar uma história” usamos basicamente o termo historiografia, que nada mais é que a escrita da história.

Normalmente temos a literatura como ficção e a história como verdade; a literatura narra aquilo que poderia ser, poderia ter sido, narra sonhos, desejos e anseios; narra aquilo que o escritor quer contar, seus sentimentos, suas emoções, seus pensamentos. Naturalmente: narra aquilo que ele vê no mundo ou quer dele – às vezes isto fica muito claro, outras vezes não.

"Escrever romances é um ato de rebelião contra a realidade, contra Deus, contra a criação de Deus que é a realidade. É uma tentativa de correção, mudança ou abolição da realidade real, substituindo pela realidade ficcional que o romancista cria. Este é um dissidente: cria vida ilusória, cria mundos verbais porque não aceita a vida e o mundo como são (ou como creem que são). A raiz de sua vocação é um sentimento de insatisfação contra a vida; cada romance é um deicídio secreto, um assassinato simbólico da realidade." - Mario Vargas Llosa, 1971. 

Por outro lado, temos a história carregando o imaginário fardo da verdade. Ela narra os fatos, os acontecimentos, os personagens históricos; suas relações entre eles e etc. Basicamente, o senso comum vê isto marcado como livro de história, com o compromisso da veracidade do passado. Aquela guerra aconteceu assim, enquanto Harry Potter não existe de verdade. E isto que costumamos escutar, e então alguns defendem: “Harry Potter existe nos nossos corações”. É isso que normalmente encaixamos no selo de História e Literatura. Entretanto, as coisas não são bem assim.

Apesar de acharmos muitas vezes que a história tem o fardo da verdade, jamais chegaremos a alcançá-la. Aqui escutamos a típica frase de que há inúmeras verdades; ou até, nada é verdade (já jogaram Assassin’s Creed?). Escutamos até falar que tudo é relativo, que depende do ponto de vista... Toda escrita da história, a historiografia – ou mais claramente aquele livro de história que você encontra na livraria –, nada mais é que uma versão de um acontecimento passado, uma perspectiva, um ponto de vista; uma história narrada a partir de um posto de observação construído num período próprio. Para deixar mais claro, Carlo Ginzburg, historiador italiano, escreveu em 1966 um livro sobre bruxas e feiticeiras nos processos de inquisição durante o século XVI e XVII; além de viver o começo da guerra fria, sentir os traumas que o fascismo deixou em seu país, seguir uma corrente ideológica, política e militante, podemos dizer que ele olhou para o passado com seus olhos do presente influenciados por tudo que tinha vivido até o momento – assim, ele acabou por escrever apenas uma versão daqueles processos da Inquisição. A fonte histórica apenas nos permite entrar em contato com o passado. Exemplo: a carta-testamento de Vargas, a do seu suicídio, sempre será a cara-testamento de Vargas escrito em 1954, resta o historiador interpretá-la da sua forma.

Cai por terra então a história como baluarte da verdade.
E a literatura, é tudo falso, mera ficção e fantasia, coisa que nunca existiu? Sim e não. Os personagens de fato podem ser inventados, mesmo tendo como referencial pessoas que existiram; mas, nem por isso ele é falso, mentiroso, que fala de coisas que nunca existiram. Não será, também, na literatura que buscaremos os fatos e acontecimentos do passado: em vez disso, encontraremos nela nada mais que as visões de mundo do escritor; como já disse anteriormente, seus desejos, anseios, sentimentos, pensamentos, ideias, perspectivas – e isso é real. O romancista inscreve na sua literatura aquilo que ele queria que o mundo fosse, aquilo que o mundo é para ele, o mundo que ele quer mostrar para os outros: as injustiças, as alegrias, as melancolias, os sorrisos, os personagens se dando bem, se dando mal, as adversidades da vida como a pobreza, a idiotice, o amor, a falta de amor; basicamente, encontra problemas e ensaia respostas para ele.

Cai por terra a diminuição da literatura como mera ficção e fantasia.
Afinal, não são os desejos e sonhos fantasiosos que impulsionam os homens a viverem?
Tanto a história quanto a literatura “são formas diferentes de dizer o real. Ambas são representações construídas sobre o mundo e que traduzem, ambos, sentidos e significados inscritos no tempo.” (p. 6).[1] O que isso quer dizer? Que tanto história quanto literatura são os pontos de vistas do historiador tanto quanto do escritor. Basicamente tiramos na sua interpretação sobre os acontecimentos do passado, o mundo que o historiador vê com seus olhos; tiramos dos sentimentos e temas dos romancistas a forma que ele enxerga o seu mundo. Tudo isso marcado por uma época, ou seja, o escritor publicou o livro na segunda metade do século XIX, no começo do XX; o historiador escreveu sobre isso ou aquilo no final do século XX, durante a Segunda Guerra Mundial.

Podemos dizer que diante destas coisas ditas, não sabemos mais nada; distinguir o que é falso ou verdadeiro, o que importa e não importa; o que tem maior peso? Buscamos apenas relativizar as coisas sem sairmos em cima do muro? Não escolherei entre um ou outro, sendo ambos interpretações do mundo, direi apenas o que já foi dito. O que vale muito mais no mundo de uma pessoa são suas vontades, seus sentimentos. Essa carga sentimental que aprendemos não apenas a interpretar como a demonstrar é o que dá verdadeiro significado ao mundo. São os sentimentos e os significados que eles dão a palavras como amor, guerra, fantasia, ficção, história, felicidade, que fazem a realidade de uma pessoa ser muito mais forte que o próprio mundo concreto, físico. O historiador sem dúvida traz isso em sua vontade de se aproximar da verdade, em sua militância como desbravador do passado e transmissor de conhecimento; mas ao meu ver, os sentimentos são a terra da literatura e em suas metáforas que transcendem o tempo e os espaço, interpretas de diferentes maneiras ao longo dos séculos e séculos.


           


           




[1] Citação retirada de um artigo da historiadora Sandra Pesavento - História e Literatura, uma velha-nova história.  

DC Renascimento: otimismo em pleno século XXI - Lendo Quadrinhos.


Como você começa algo? Apresenta os personagens? A história? Você mostra todo o poder das ilustrações e da arte? Do roteiro? Como você começa?
            Com os dois pés no peito. Você vai direto na jugular, sem dó nem piedade. Mas depois você levanta o leitor, coloca a mão pelos ombros dele e começa a guiá-lo, conversa com ele e diz que você tem uma história para contar e que dessa vez ela não vai te desapontar, que essa história será algo grande, mudará muitas coisas; e que tudo que você espera cairá por água baixo, porque ele é o contador de histórias, está aqui para te surpreender, fazer você se emocionar, chorar um pouco, sentir nostalgia e tentar encontrar aquele seu lado sonhador e fanático por algo realmente épico.
            São muitas palavras, e com toda certeza pode se dizer que o tom é de euforia. O fato é que a DC não teve medo e chegou chegando. E como fez isso! Eu realmente estou feliz, mas antes de tudo... tenho que mostrar um pedaço do meu diário.

Diário de Matheus. 4 de Maio de 2017.
Hoje eu entrei na banca. Comprei a edição do Universo DC Renascimento. Eu não sou um leitor de histórias em quadrinhos “raiz”. Comecei a pouquíssimo tempo, não sou fanático, mas aprecio quando algo é bom e entendo o que está por vir.

É isso pessoal, eu não sou um leitor de Hqs como o “comum nerdão”, o famoso estereótipo. Eu não comecei a ler quando era criança, não lia nem Turma da Mônica, os quadrinhos não preenchiam a minha vida. E é justamente por essas coisas que eu tenho algo para dizer sobre essa nova fase da DC. Essa é a primeira vez que acompanho direto, edição por edição, mês por mês, e aos poucos vou entendendo o fanatismo que faz milhões de pessoas amarem heróis. 
DC Renascimento (Rebirth) chega com os dois pés no peito. Sem do nem piedade ele estapeia o leitor, faz seus queixos caírem; por diversos motivos, mas o principal é que ele introduz o Watchmen no Universo DC. Provavelmente Allan Moore não ficou nada feliz, a história estava fechada, havia sido contada, e era aquilo, uma obra-prima por si mesmo. Entretanto tenho que admitir, eu fiquei bem feliz e empolgado – acho que muita gente ficou assim. Depois de Os Novos 52 terem desagrado muitos fãs com seus enredos mais sérios, pesados e melancólicos, Rebirth chega sugerindo completamente o contrário: aqui é o amor, a lealdade, a esperança e a coragem que guiará as histórias, veremos os heróis sendo heróis no sentido “clássico” da palavra.

Vocês podem se perguntar: – Mas por quê? Estamos em pleno século XXI, as histórias não poderiam ser diferentes do velho clichê?
Meus amigos, em nenhum momento heroísmo é antiquado. Poderíamos começar a escrever histórias mais realistas, com um pé nas próprias falhas humanas – assim como foi Watchmen – e tenho plena certeza que muitas coisas boas sairiam daí, mas a DC fez suas apostas, em tempos sombrios como os nossos, talvez um pouco do velho e “antiquado” heroísmo possa ser exatamente o que nos fará acreditar na esperança de um mundo melhor. É duro, eu sei, duro tentar acreditar que guerras civis, conflitos armados, refugiados, injustiça, fome, desigualdade possam acabar. É difícil ser otimista hoje em dia, é difícil tentar crer que as coisas podem melhorar, difícil sair de sua vida alienada em que decide se preocupar com si mesmo porque acredita viver numa selva (e acredito, eu te entendo, e é talvez até justificada a sua escolha). Mas a DC está aí para mostrar que não devemos aceitar as coisas como elas são:

Acho que não tem como ter sido mais claro. O especial RC Renascimento que acabou de começar a sair no Brasil dá a largada para o inicio dessa nova fase aqui. Lá fora, no entanto, começou na metade do ano passado. Essa primeira edição joga novas tramas, investigações, dá todo o teor do que será daqui para frente. A ideia é que alguém fora do tempo estava observando os heróis, e deles tirou 10 anos de todos. Mas não só isso (como se já fosse pouco rsrs), esses anos representam a perda de todas as fortes relações construídas entre os heróis, o amor, a esperança. Eles estão – como posso dizer? – enfraquecidos iguais a nós que vivemos no século XXI, em que as relações com os próximos parecem ser muito mais difícil do que supomos ser antigamente. Heróis que eram lendas agora só são iniciantes. É como o narrador dessa edição diz – nada menos que Wally Weste, o Kid Flash (a própria história explica melhor quem ele é, deixarei que ela conte) – esse pessoal fora do tempo atacou eles bem no coração. Sem as fortes relações eles ficaram mais fracos e vulneráveis.
Sobre esse pessoal fora do tempo, há muitas suposições: é o Dr. Manhanttan, praticamente um deus que domina a matéria – ao que parece, é ele que retira os 10 anos de todos, além de ter criado o mundo mais pessimista d’Os Novos 52 –; outro que ao longo das revistas aparece é o Sr. Oz, que muitos creem ser o Ozymandias. Além disso, o bottom do Comediante aparece na Batcaverna. Todos são personagens de Watchmen. As peças estão colocadas, e resta agora mergulhar com tudo nesse Universo.

De um leitor iniciante eu posso dizer que está valendo muito a pena. Eu ainda não pego todas as referências, muito menos conheço todos os personagens, mas o melhor é que essa nova fase começa mais ou menos do zero, isso é, se você quer começar a ler HQs, mas fica perdido nas edições e nas inúmeras revistas, esse é o momento certo. Claro que não é um reboot, e algumas coisas devem ser lidas antes de começar, por exemplo: Watchmen – eu fiz uma análise da HQ aqui. Se não quiser ler ao menos assista o filme. Outras vocês podem simplesmente procurarem vídeos do youtube, blogs e sites que já explicaram tudo que é necessário saber para começar a ler o Rebirth – coisas como o filho do superman, o filho do Batman, o superman pré-52, entre outras coisas.

Eu comecei com a revista do Batman e posso dizer que até o momento é a minha preferida. Ele agora está num momento suicida, jogando sempre com a própria vida, tomando conta de seus “alunos” em treinamento, sofrendo pelas perdas, apanhando muito, muito mesmo, mas sempre determinado. Ele tem um plano para Gotham, agora sabe mais do que nunca que sozinho ele não dá conta do recado; e ele está fazendo a sua aposta. Não é apenas pelo herói, é porque simplesmente o roteiro está simplesmente foda e a arte está em plena sincronia, além de que há arcos muitos bons (o meu preferido até agora é o “eu sou suicida”). E agora o Batman e o Flash começaram a investigar o bottom do Comediante... e já teve um momentos chocantes.
Eu também comecei a ler a Detective Comics, a revista que apresentou o Batman para o mundo, e posso afirmar que está igualmente boa. Como eu disse, é uma experiência nova, então para mim foi incrível ver o universo do Batman sendo ampliado com tantos heróis que tem o morcego no peito, organizações militares, novos grupos de vilões e etc. Aqui também aparece o Sr. Oz, com todo o seu mistério, ele é aquele que mexe os fiozinhos, que não está no jogo, mas só manipula.

Agora sobre a Action Comics... sei que muita gente não gosta do Superman, que pelo seu idealismo da “nojo” há muita gente. Alguns até falam que ele é norte-americano demais. Certinho demais. Bem, eu dei uma chance para ele, comecei a ler a Action, e já começou muito bem. Mas ele realmente me ganhou quando ele teve que lutar sem os seus poderes. E aí você vê quem realmente é o Superman... Aqui também somos apresentados a outros supers. Mas no geral, ela ta me agradando bem e aos poucos vou gostando desse herói.
Temos a revista do Superman, em que o filho dele é melhor apresentado, além de sua própria vida. Temos a da Mulher-Maravilha, que realmente começa do zero, que é ela buscando conhecer a si mesmo. Essas também tem boa qualidade e vale a pena, sem dúvidas.
Mas para finalizar aqui, meio que uma opinião, meio que um sugestão. Vale a pena você começar a ler; até para aqueles que não pensavam em ler HQs. Eu estou apreendendo com eles, me divertindo, apreciando as palavras e a arte. Estou conhecendo os heróis, vendo como pensam, como se transformam. Vejo como eles vêm o mundo, a injustiça, a justiça. Vejo a filosofia que os guia. Porque são heróis e não outra coisa? Enfim, um otimismo tão forte, que por um momento podemos aceitá-lo, porque queremos crer, enquanto lemos, que apesar das grandes falhas da humanidade, podemos fazer algo, nem que seja nunca deixar de desistir. 


A Missão de Tranformar o Mundo num Lugar Melhor


Há exatos 90 anos uma criança nascia para ser um dos grandes literatos latino-americanos. Claro que ele não sabia disso, e enquanto jovem se preocupava apenas em se divertir escutando histórias de seu avô e passear com ele pelo vilarejo de Aracataca na Colômbia.
            Dessas aventuras imaginativas de seu avô nas Guerras Civis da Colômbia, juntamente com aquele ambiente repleto de bastardos e pobres numa cidadezinha fadada a ser decadente, esse garoto, um adulto já na década de 1960, se pôs a escrever uma espécie de sínteses de um problema que via recorrente em seu continente.
            Mas, espere um pouco. Naturalmente a história não é assim. Nunca que coisas grandiosas vêm assim do nada. Ou pelo menos isso é extremamente raro. É claro que uma inspiração pode significar muita coisa, e com isso fazer criar algo original. Entretanto, o que há para entender é que essas inspirações muitas vezes fazem funcionar um circuito de luzes, unir pontas, ideias e pensamentos em algo. É daí que grandes coisas surgem. É daí, por exemplo, que uma obra prima da literatura como Cem Anos de Solidão surge.


            Gabriel García Márquez, entretanto, não sabia de Cem Anos de Solidão antes de escrever. O que havia era uma ideia que foi amadurecendo ao longo de 18 anos. O romancista tinha em mente apenas escrever algo grande ali na casa dos quarenta. Esse era seu objetivo como escritor. Nessa trajetória vieram Kafka, Joyce, Faulkner, Woolf. Vieram leituras de seu próprio continente. Vieram uma carreira jornalística, uma viagem que o levou a União Soviética, Itália, Paris e Londres. A Revolução Cubana foi proclamada. Suas primeiras obras foram escritas e publicadas (como A Revoada, Ninguém Escreve ao Coronel, A Má Hora, Os Funerais da Mamãe Grande). E então, quando via e sentia as ditaduras eclodirem ao seu redor, decidiu se exilar no México, e lá, em algum momento de 1965, tudo que havia vivido pareceu entrar numa sintonia onde só o Universo é capaz de entrar, e então ele criou seu próprio mundo.
            Melhor dizendo, ele conseguiu tornar aquele mundo, Macondo, em um mundo que se mantinha vivo por si só. Essa mesma aldeia já esteve em outros contos e livros de García Márquez, e com o tempo foi aperfeiçoando. Alguns personagens célebres apareceram antes de Cem Anos de Solidão, como é o exemplo de o coronel Aureliano Buendía e Rebeca.

             - Um momento, porque você está falando tudo isso? Não vejo uma clareza nesse texto.

            Tudo bem, acalme-se. Tudo que estou escrevendo vai fazer sentido. Isso não é um texto para falar da criação de uma grande obra, mas não dá para tirá-la da vivência desse escritor, pois ela definiu não apenas uma forma literária, não apenas trouxe uma nova face do romance e alcançando números de vendas jamais imaginados para latino-americanos; ela também fez alavancar a carreira do autor, e principalmente, a forma que ele via o seu mundo.
            Você já teve aquela impressão que pessoas veem o mundo completamente diferente de você, certo? E provavelmente você chegou à conclusão que ninguém vê as coisas iguais, não é? É por aí que esse texto vai seguir. O que é para ser mostrado é que ao escrever Cem Anos de Solidão, García Márquez deve ter sentido uma iluminação (claro que isso é só minha forma de narrar: abrindo hipóteses), pois conseguiu em uma prosa colocar ali todos os pontos que achou primordial para representar a América Latina. Viu ali toda a violência, injustiça, falta de esperanças, fé sem sentido, desejos e sonhos sem pé nem cabeça, magia, fantasia, coisas épicas, sobrenaturais, um destino cujo não temos controle e uma forma de expressar tudo aquilo que via e sentia. E pode concretizar essa realidade ao publicar, e posteriormente ter vendido 50 milhões de cópias no mundo. Outros países puderam ver essa realidade desaforada que vivemos, essa terra de sonhos e esperanças que já nascem mortos. Naquele livro ele pode expressar como ele via a sua terra.

            E é graça a ele que hoje podemos ter uma noção de quem somos nós. Isso mesmo, ainda hoje no século XXI, quase 50 anos da publicação desse livro (faz aniversário em junho). Claro que muita coisa mudou, pessoas morreram, escritores surgiram, impérios caíram, guerras acabaram, assim como outras guerras começaram. Claro que aquela sua realidade já não é a mesma de hoje. Se pudéssemos tomar suas perspectivas como as nossas, eu não saberia dizer se agora tudo ta melhor ou pior que antes. Diferente, obviamente está... mas o que interessa é que seu pensamento ainda está vivo hoje, imortalizada por sua obra – o momento exato do passado(1965-66) sido representado por uma narrativa.
            Somos capazes de percebermos isso num simples exercício de empatia, ou no mínimo simpatia. Basta ler esse livro e perceber que ele parece tão atual. É aquele momento que passamos a ver as coisas se repetindo, impressões que você está passando pelas mesmas coisas de seus pais, ou até mesmo de sua infância. É ver coisas se articulando, agindo da mesma forma, quase como se as coisas estivessem dando voltas – que tudo estivesse fadado a se repetir. Você já sentiu isso? Claro que esse exercício é algo bem particular, mas quero crer que você, em algum momento de sua vida até agora, já sentiu isso. Espero, caso não tenha sentido, que nunca venha a sentir essas coisas, pois o que geralmente acontecesse repetidamente são as coisas que consideramos ruim.


            É isso que esse escritor sacou. Não apenas sentiu essa repetição das desventuras latino-americanas, como tentou, ao longo de alguns anos desde que a ideia começou a amadurecer, estabelecer o motivo, explicar porque essas coisas acontecem com a gente. Em 1965 e 66, acredito que ele não só conseguiu a chegar próximo de um resultado a sua pergunta, mas encontrou nela a síntese do próprio mundo que vivia, e isso não apenas na América Latina, mas em todos os lugares. Enquanto não tivermos voz sobre as nossas próprias vidas, ou seja, enquanto outros decidam quando, onde, porque ou o quanto vivemos nossas vidas, jamais estaremos livres dessas repetições. Enquanto não deixarmos por escutar o nosso passado, sem negá-lo ou oblitera-lo, estaremos aqui vivendo o ontem. Enquanto continuarmos com nossas amnésias típicas frente a problemas que estão intrinsecamente ligados as nossas vidas, estaremos sempre condenados á solidão, e quando percebermos todas essas problemáticas do nosso mundo, talvez já não possamos ter uma segunda chance. Esse é o grande perigo que Gabriel García Márquez estava tão preocupado em expor; e infelizmente gostaria de te dizer, querido colombiano errante e nostálgico, que ainda não conseguimos deixar de ser cegos para esses grandes problemas de vida. Gostaria de agora poder afirmar com felicidade que aquilo que você estava ciente em 1966, não acontecesse mais, pois só aí sentiria satisfeito de homenagear seu aniversário.
           
Mas não posso fazer isso. Não posso mentir, e o que resta a fazer para que seus pensamentos não morram como todas essas coisas que tratamos de esquecer, por parecer não haver soluções, é simplesmente continuar buscando alguma solução. Continuar nessa circularidade até achar uma brecha. O que posso afirmar, por mais que eu não tenha certeza (digamos que seja fé), é que ainda há pessoas dispostas a encontrar o que possamos fazer diante dessas desventuras. E acredito que a cada ano, apesar dos inúmeros silêncios que a mídia e a política trata de impor a nós, somos um pouco mais do que antes. Lutadores que lutam sem esperanças, iniciam brigas sabendo que não há como sair bem dela, fazem as coisas mesmo não tendo muitas utopias, quase como se na essência e apenas ela o motivasse a lutar contra injustiça que cresce cada vez mais.

“Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e malandros, todos nós, criaturas daquela realidade desaforada [América Latina], tivemos que pedir muito pouco à imaginação, porque para nós o maior desafio foi a insuficiência dos recursos convencionais para tornar nossa vida acreditável. Este é, amigos, o nó da nossa solidão.”
           

            Gabriel García Márquez é considerado por Ángel Rama, crítico literário uruguaio, como aquele que mais conseguiu sintetizar o problema latino-americano e universal nos tempos de hoje. Não apenas isso, mas que com sua prosa conseguiu atingir, pela primeira vez na América Latina, um público imenso. As tiragens antes do da década de 1960 dos livros ficava em torno de 3.000 por edição. Cem Anos de Solidão teve uma tiragem inicial de 10.000 e pouco depois alcançando o valor de 100.000. A tradução portuguesa aqui no Brasil já deve estar pela 90° edição. Atualmente o livro já passa da marca 50 milhões de cópias vendidas. Vendo o quão fácil é encontrar esse livro em sebos, podemos ter uma noção de que muitas mais pessoas leram esse romance. O escritor, sabendo ou não se aquele livro venderia tanto, conseguiu apresentar o seu pensamento não apenas a uma pequena camada de intelectuais, como levou sua problemática a qualquer um que sabia ler ou ao menos escutar. Gerald Martin, seu biógrafo e professor emérito de literatura latino-americana da Universidade de Pittsburgh, o considera como o 1° escritor globalizado do mundo.
            Agora, o que seria a literatura, ou até o mundo sem a existência desse escritor como escritor, isso é, se, enquanto estivesse fazendo Direito em Bogotá, capital da Colômbia, decidisse realmente seguir essa carreira, abandonando assim a literatura? Ah, não saberei dizer (rsrs). Talvez futuramente eu possa começar a pensar sobre isso, mas por enquanto vou apenas revelar que mais de 200 estudos sobre ele e suas obras deixariam de existir. Talvez a problemática da identidade latino-americana não tivesse tanto peso. Mas, no final, isso é apenas tentar gratifica-lo por aquilo que ele fez à literatura e a história, mas não quem realmente foi, pois antes de tudo García Márquez era um homem, humilde, brincalhão, adorava fazer pegadinhas com os críticos e jornalistas, adorava relatar seu mundo, criticá-lo; tentava a todo custo achar uma forma para transformar o mundo num lugar melhor. Teve suas falhas, afinal, quem não tem? Pode ter apoiado um sistema (Revolução Cubana) que muitos trataram de se opor, pode ter gostado da imagem do bom patriarca, ou ser criticado por declarar abertamente de esquerda. E apesar de todas as suas falhas e ganhos, nunca deixou de se considerar latino-americano, jamais deixou de acreditar na América Latina, por mais que fosse difícil; nunca a renegou, lutou sempre para buscar uma independência cultural, social e intelectual dela. Posso até dizer que durante grande parte da sua vida lutou por um sonho fadado ao fracasso, mas isso nunca o impediu de acreditar.

“Num dia como o de hoje, meu mestre William Faulkner disse neste mesmo lugar: ‘Eu me nego a admitir o fim do homem’. Não me sentiria digno de ocupar este lugar que foi dele se não tivesse a consciência plena de que pela primeira vez desde as origens da humanidade, o desastre colossal que ele se negava a admitir há 32 anos é, hoje, nada mais que uma simples possibilidade científica. Diante desta realidade assombrosa, que através de todo o tempo humano deve ter parecido uma utopia, nós, os inventores de fábulas que acreditamos em tudo, nós sentimos no direito de acreditar que ainda não é demasiado tarde para nos lançarmos na criação da utopia contrária. Uma nova arrasadora utopia da vida, onde ninguém possa decidir pelos outros até mesmo a forma de morrer, onde de verdade seja certo o amor e seja possível a felicidade, e onde as estirpes condenadas a cem anos de solidão tenham, enfim e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a terra.”


            Enfim, parabéns Gabriel García Márquez. Hoje infelizmente não temos você aqui conosco, mas acredito ter feito tudo àquilo que teve em mãos, e ainda mais. Seus sonhos, pensamentos, ideias e motivações, apesar de parecerem idealizados, não morrerão enquanto sua obra não cair no esquecimento. Ainda há pela frente muitos jovens que abrirão seus livros e suas crônicas, jovens acadêmicos que o estudarão por verem na sua imagem algo a mais, e que logo descobriram que o mais na verdade não existe, pois você mesmo se tratou como um latino-americano de igual para igual aos outros, como um humano preocupado em ver as coisas melhorarem, em tentar dar uma segunda chance a todos, assinalando que, se recebeu o Prêmio Nobel em 1982 é porque, por ironia do destino, teve um pouco de sorte. Enquanto eu viver estarei falando de você para os outros, narrando as histórias de seus livros para amigos e parentes, sendo o chato que faz a todo custo os outros lerem seus romances, fazê-los entender porque, para mim, você se tornou uma imagem emblemática.


           Para finalizar de vez, deixo um último agradecimento a esse colombiano latino americano nostálgico e errante, que com suas histórias tratou de contar sua realidade e sua filosofia, mudando a forma que olhamos para nós mesmo, e por consequência, mudando o mundo.



Algumas Palavras sobre Breaking Bad - 24 Quadros

 Um velho segurando uma arma no meio de uma estrada de terra – que está no meio de um deserto – aponta para o nada. Ele está sem calça, apenas vestido uma camisa verde. No fundo o som de sirenes. Aí você se pergunta, que porra é essa? E eu respondo com algumas palavras em forma de um texto.
            Breaking Bad é uma das melhores séries já produzidas e tem uma legião de fãs. Como sempre, há um grupo de pessoas que vê um, dois episódios e acha chato. Normal, se algo não nos prende do começo, pode ser que essa série não seja para nós. Entretanto, o que me causou espanto é perceber que pessoas dos mais diversos gostos gostam muito dessa série. E é porque ela consegue enquadrar inúmeros símbolos, desde controle, poder e ganância à determinação e astúcia e amor.
           

      História e Roteiro
            Por baixo dessa grande jornada de Sr. White podemos diminuir a história para algo simples: um homem que tenta conquistar o controle da sua vida e do seu destino. Acontece que esse caminho trilhado por esse professor com câncer arrasta todos a sua volta para a desgraça, quase como se aquele fosse o preço de uma pessoa tentar controlar seu destino. Talvez isso seja uma lição do perigo dessas ações é que, como aprendemos no final, devemos reconhecer nossas responsabilidades (“Tudo que eu fiz... eu fiz isso por mim. Eu gostei de fazer. E eu era bom naquilo. E eu me sentia... vivo.”) e ajeitar tudo. Seja o que for que fez nosso destino sair das nossas mãos, o preço de recuperá-lo é árduo, e Walter nos mostrou que a caminhada, meus amigos, nunca será como imaginamos, e pode cobrar altos preços.

Entretanto, jamais deveremos simplificar a série à esse ponto.
Quando fui à uma palestra do Brian Azzarelo sobre roteiros, ano passado na Comic Con, o quadrinista acabou citando algumas vezes a série:
            - Breaking Bad é uma ótima série. Seu roteiro é perfeito. Eu não mudaria nada nele, do começo ao fim. O final é simplesmente perfeito e deu tudo aquilo que eu queria ver. (Não foram exatamente essas as palavras, mas é a ideia geral).
            Acho que isso é um dos principais pontos que todos adoram nessa série. Não tem o que você mudar. Não precisa ser escritor para você entender o que deve ser mudado ou não. Antes disso, escritores, roteiristas também são leitores e amantes de filmes e séries. É questão de sensação. Você se sentir satisfeito com o que está vendo. Não haver nenhuma falha, nada forçada: pelo contrário, tudo criado com equilíbrio e leveza. Talvez você fique irritado e puto com certos eventos, mas é simplesmente porque aquilo te afetou, não que é ruim. Breaking Bad, ao que se acredita por ter um roteiro maravilhoso, será marcante em quase sua totalidade. Não, não é isso. Os roteiristas e o criador souberam dosar perfeitamente as tensões no roteiro; nas falas dos personagens. Só uma ou outra vez realmente você escutará aquilo que ficará na sua cabeça: “Say my name” “I’m the danger” “Yeah, Science!”. São frases utilizadas apenas uma vez ao longo de 5 temporadas. O próprio nome de guerra de Walt, Hesinberg, foi usado tão pouco que da para contar nos dedos. Entretanto, eles são tão marcantes pelo fato de serem raros, que acabam “mitificando” a série, sendo esses alguns dos pontos altos (em falas); e a representação dela.

            O tom encaixa perfeitamente com a história. Se percebermos, é uma história simples, igual as falas, mas ela é tão bem construída e finalizada que essas falas representam muito mais do que aquilo que elas falam apenas “sonoramente”. As situações aparecem de uma forma esperada (espere um momento, vou explicar porque às vezes é difícil afirmar isso) e são resolvida, em grande parte com soluções igualmente esperadas. A câmera segue padrões simples de filmagem. Nada de muito extraordinário. E basta dar uma olhada nos personagens... o que vocês sabem das vidas deles? Percebem? Parece que eles não têm um passado. Quem são os pais de Walter, o que fazem? Como foi a infância dele? Como conheceu a Skyler? Em qual Universidade se formou? .... Agora faça essas perguntas à cada personagem.. e você perceberá que terá respostas simples: um perdedor, um policial, uma esposa, um submisso, um filho, um rico, traficantes, empreendedores. Pegue a história de Gustavo Fring.  A representação de sua vida expressa exatamente o tom da história. O passado de Gus no Chile é praticamente queimado, não existe... em contra partida, sabemos apenas de algumas coisas, como arranjou uma reunião para apresentar a proposta da venda de metanfetamina, e que ele imigrou do México. O que tiramos disso e que a série comprova a cada episódio? As escolhas.

            Em Breaking Bad elas sobrepõem a história de vida, como se o passado de alguém não é majoritariamente o que faz uma pessoa. Não é a única que transforma o eu. E isso vai contra quase toda produção cinematográfica e de TV (claro que ela não é a única, e que há muitas que abordam dessa forma, mas elas são pouquíssimas comparadas a toda produção). Nada de fantasmas do passado lhe assombrando em flashbacks, e se eles aparecem, estão relacionados aos momentos atuais. Quando Eliot, na última temporada, fala que Walter só teve a criação do nome da empresa como contribuição para ela, ele não relembrou a sua mágoa interna, apenas sentiu seu orgulho ferido.


      As Escolhas
            O ponto que quero mostrar é que, se as escolhas predominam na história – e seu ápice é quando Walter decide seguir como cozinheiro e traficante, mesmo sabendo de todos os maus que vem com essa decisão – quer dizer: o que devemos ver é o presente e seu desenrolar, ou seja, devemos ver o todo que está na tela; aquilo é importante... E quando digo tudo... é tudo! As roupas, os móveis, os objetos, as fotos, as cores, os lugares, as posições, as expressões... e por aí em diante. A teoria das cores é um grande exemplo. Lavar carro e lavar dinheiro. O Walter sempre estar pensando perante a uma piscina. Quando alguém apanha, apenas um lado fica estourado (sempre é um lado). Há muitíssimas coisas para exemplificar, mas acho que vocês entenderam. Basta olhar a fotografia da filmagem, é simples sim, mas... ela é utilizada para mostrar o que devemos ver. Geralmente o enquadramento é amplo, mostrando todo o ambiente, os contrastes, mostrando todas as pessoas inteiramente, mostrando os objetos, o cenário; basicamente toda a totalidade. Não há o que esconder ou causar mistério, as cartas estão postas na mesa.


Acontece que há uma exímia ligação entre esses aspectos e as situações e os eventos que se sucedem na história. A escolha delas é genial. Podemos ter um roubo de um trem... mas ele é de Metilamina, e é feita com apenas 4 pessoas, um reservatório de água e algumas mangueiras. Ou quando se precisa roubar um barril... de Metilamina... e você prende um guarda num banheiro químico, enquanto queima uma fechadura com o material de brinquedos e saí carregando o barril em dois (sem rolar...). Essa face multifaceta da série junto com todos os detalhes é o que faz dar a noção de uma história complexa, apesar de ter resoluções esperadas. Ou seja, a espinha dorsal da história segue simples, mas o corpo tem tanta carne, repleto de órgãos e tendões, articulações e cartilagens, conexões neurais e um coração que bombeia forte para suas veias e artérias... que você não consegue ver a constituição primária.

           
         Arquiteto ou Jardineiro?
Sabe quando você lê e assiste algo em que a seqüência de eventos se sucedem, uma atrás da outra, como se sempre surgisse problemas? E quando a história opta por interligar todos os pontos para converter em situações e eventos arquitetados desde os primórdios? É comum ver essas duas faces, e principalmente a segunda me agrada bastante na maioria dos casos. Eu poderia dizer que os detalhes e os eventos de Breakings Bad estão todos amarrados, como se fossem planejados antes mesmo da gravação da 1° temporada. Entretanto assistindo pela segunda vez comecei a me perguntar se era mesmo assim. A conclusão: o criador da série optou por mesclar. Não sei dizer se foi a primeira intenção dele, mas é visível. Algumas coisas estão conectadas do começo ao fim e provavelmente estavam no esboço da história, outras... em vez de apenas serem detalhes relevantes para aquele momento, Gilligan acabou deixando correr a narrativa, e para não ser a mesmíssima ele decide tirar o máximo proveito das situações e detalhes. Logo você vê uma situação que não gera apenas mais outra em seqüência, mas ela cria ramificações que seguem em caminhos paralelos, mas diferentes. A recina, um veneno que Walter produz, se apresenta primeiramente como solução, para em seguida acabar com o psicológico de Jesse, depois faze-lo ficar ao lado de Walter, depois contra, e enfim ser uma última arma utilizada para matar os resquícios de seu trabalho, sua marca. Ou a morte de Tuco que coloca Walter no controle do tráfico, faz o Tio Salamanca odiar Walter, dois irmãos caçarem-no, criar uma dívida com Gus, aleijar Hank, criar o ódio do Cartel à Gus, gerar um massacre, fazer o Tio ser torturado, e depois causar a morte de Gus. É como matar vários coelhos com uma cajadada só. E a cada situação retirada de uma única morte. As ramificações que se criam se desenrolam, criando uma grande teia interligando cada ponta.
            Assim, a mescla de arquitetar a história e tirar máximo proveito das situações seqüenciais – ser como um jarneiro e ver o que cresce dali –, acaba trazendo uma sensação de prazer por se ver tudo conectando com maestria.

            Fotografia e Narrativa
            Por último, falarei da narrativa. Na literatura ela aborda um campo vasto, mas que é mais comum de entendermos e analisarmos, ou de até percebermos. No cinema ou na TV há uma narrativa e ela também é vasta. Entretanto, o que muitos deixam de lado é a câmera. Da fotografia. Para mim ela é uma narradora que dá voz ao diretor e criador Vince Gilligan. Como dito antes, a câmera acaba mostrando a cena inteira, sua totalidade, não deixando de mostrar nada, não causando nenhum mistério. Essa é uma das formas narrativas. Outra, é como as situações são mostradas. Você já deve ter percebido como a série valoriza o silêncio. A ausência de som na vida cotidiana da casa de Walter, da família tomando café, de um passeio de carro. Por um momento é um silêncio até que constrangedor. Entretanto, os silêncios mais memoráveis são aqueles que se segue após um momento de Boom. 
Isso é, quando Tuco sequestra Walter, ele sai de casa, observa Jesse, vê o cara apontando a arma e chamando-o para dentro, e sem nenhum barulho, sem hesitação alarmante, ele entra e o carro sai dali em uma velocidade baixa, calma e serena. Outro momento é quando Walter desaparece por alguns dias, quando Skyler já sabe de tudo, ele volta para casa, ela pergunta se ele ta bem,e ele responde que sim, e só. Ele sai andando para entrar no carro e câmera acompanha de perto seu rosto. Nessas duas cenas a câmera, ou seja, a forma da apresentação da história, não se alarma, não fica trêmula, nem corrida, nem acelerada. Ela continua a mesma. E isso, pode acreditar, quebra nossas expectativas sem percebermos. 

Estamos tão acostumados de ver uma narrativa que se enquadra ao momento da cena, que quando veremos algo anormal na história, e esperamos uma filmagem anormal, ela continua a mesma, quase como se aquele momento alarmante e desesperador é completamente comum, mesmo você sabendo exatamente que não é. A utilização desse método não é usado o tempo inteiro, e em certo momento, para o final de Breaking Bad, ela acaba mostrando que realmente essas coisas desesperador se torna o cotidiano de Walter. Entretanto, essa fotografia se mantém contínua ao longo dos episódios, juntamente com o silêncio e a totalidade da cena. E isso, meus amigos, é uma narrativa tão boa e imperceptível à primeira vista, que é mais um dos motivos de a série ser tão boa. 


Ainda pode se falar muito sobre Breaking Bad. Há blogs e mais blogs falando sobre a série, suas visões e pensamentos diferentes. Há ainda a excepcional atuação dos atores, o desenvolvimento dos personagens, a trilha sonora, a rigidez em que é apresentada a parte química da série, e muitas outras coisas. Breaking Bad ainda será muito falado e alvo das críticas. Muitos ainda assistirão essa série e darão razão a nossas opiniões. Eu decidi apresentar esses pontos escolhidos, debater um pouco mais para abrir mais alguns leques para os fãs, ou fazer as pessoas começarem a assistir. Queria também revelar mais um pouco da genialidade da série e mostrar que ainda se pode descobrir muito mais coisa. Mas por hoje, caros leitores, é só. Deixo por último uma pequena referencia à outra série tão amada quanto....







































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No episódio 11 da 3° Temporada, quando Walter decide lavar seu dinheiro junto com Skyler, Saul sugere um lugar, que ao seu olhar, é maravilhoso para lavagem de dinheiro. Ele olha para o casal e diz animado: Wait for it... Laser Tag. Alusão clara a famosa frase de Barney em How I Met Your Mother, com a mesma entonação dele, além de seu lazer preferido na série \o/ Lembrando também que os dois, tanto Bryan Cranston (Walter White) quanto Bob Odenkirk (Saul Goodman), atuam em How I Met, e durante a 3° Temporada de Breaking Bad, ela ainda estava sendo rodada.





O Grande Massacre de Gatos - Os Bardos


AVISO: as linhas seguintes conterão histórias bizarras e que podem abalar o seu psicológico. Caso sinta náuseas, empolgação ou uma crescente curiosidade afaste-se o mais rápido possível, pois a História é viciante e pode fazer mal ao seu círculo de amizade.

            Provavelmente serei um louco ao iniciar essa coluna. Os Bardos será um punhado de textos que apresentaram livros que contam histórias. Para melhor entendimento: Histórias mesmo, essas conhecidas no senso comum com "H" maiúsculo, que é costume falar que são “reais” e que aconteceram. Entretanto não são histórias contadas em livros de história dos colégios e escolas. Não, aqui serão livros conhecidas em grande parte apenas pelo círculo acadêmico, mas que vocês logo perceberão que deveriam chegar às pessoas que não tomam história como seu ofício.

            Mas por quê? Robert Darnton, o historiador desse primeiro texto, tem uma ideia simples, mas sincera e verdadeira, sobre contar histórias. Ela não deve apenas ser escrita de historiador para historiador, de acadêmico para acadêmico. A história está aqui para nos trazer conhecimento, e negar ela para outros que não querem ser historiadores é quase uma blasfêmia. Esse é o motivo dessa coluna, e a cada livro que eu apresentar à vocês espero que percebam como a história é interessante, pois se acham que ela é apenas aquelas que estão nas escolas é ignorar talvez a melhor parte dessa matéria. Não culpo vocês se tem essa noção, apenas o estado do ensino hoje em dia, que acreditem ou não, é quase o mesmo de um século atrás. Esse texto também não será como uma resenha ou análise acadêmica, será para você que apenas quer conhecer um pouco mais de história e buscar inspiração.
           
            Agora, para começar bem, o livro escolhido é O Grande Massacre de Gatos, do historiador estadunidense Robert Darnton. Suas pesquisas se voltam ao século XVIII na França. Sua obra contém seis ensaios históricos sobre aquele período e trazem os temas mais diversos, exóticos, peculiares e bizarros. Darnton tem a ideia de que se você tropeçar por alguma voz (documento) do passado e não entende-lo, por exemplo uma piada da época, é porque você encontrou um acesso para entender um pouco como aquelas pessoas pensavam, entendiam e viam seu mundo. Esse é o objetivo do livro.

            Então você se vê frente a uma narrativa de um massacre de gatos na metade do século XVIII, de artesãos que esmurravam, cortavam aos meios, batiam com pedaços de ferro, quebravam as espinhas e enforcavam gatos. Amarravam eles em sacolas e jogavam na fogueira, botavam fogo nesses animais e saiam atrás numa brincadeira. E o “pior” de tudo é que eles achavam aquilo engraçado, hilariantes, e jamais esqueceriam o feito como algo marcante.
Agora você pensa – O que essas pessoas tinham na cabeça?
E eu pergunto a vocês – Por que Darnton traz essa história verídica que nos horroriza tanto? Qual seu objetivo? O que isso significa?
Eu respondo logo em seguida – Ele quer mostrar a você como aquelas pessoas do passado, cada um à sua época, não são como nós, não pensam como a gente, além de verem seu mundo completamente diferente do nosso.
Aquele massacre tem um significado próprio para aqueles artesãos, que para nós é impossível sentirmos, mas não impossível de termos uma ideia da graça daquele massacre. Essa resposta eu deixo para vocês descobrirem, afinal, será bem mais prazeroso com a leitura. Darnton utiliza de uma vasta pesquisa sobre o período, e a simbologia que animas, principalmente o gato, denotavam naquela sociedade, o estado que os trabalhadores e artesãos viviam, assim como seus assistentes e os mestres. O historiador remonta e nos mostra como era as experiências daquela vida e como aquilo explica o motivo de massacrarem gatos e rirem com tudo aquilo. Hoje em dia é impensável alguém sair matando gatos, ou pelo menos a grande maioria das pessoas vão condenar o ato, mas naquela época? Nem um pouco...
            Darnton não para por aí. Outro capítulo conta a história da vida de um inspetor de policia francês, cujo seu trabalho é fiscalizar escritores, suas obras e a venda delas. Basicamente o comércio livresco na Paris do século XVIII. Você descobre que Hémere montou um quadro com o perfil de grande parte dos escritores da época, desde Rousseau, Voltaire, até aqueles que nunca conheceremos na vida. Ele pesquisou suas histórias, suas obras e com tudo pode fiscalizar a produção “intelectual” do período. Montou pirâmides etárias, quadros de profissões e de qual “Estado” viviam (lembrando daqueles três Estados do Antigo Regime: clero, nobreza, e o restante). Talvez você se sinta maravilhado apenas por descobrir que isso realmente existia naquela época, que realmente a literatura e as ideias podiam ser extremamente perigosas, tanto que o governo francês se preocupava tanto a ponto de destinar muita verba para perseguições de escritores, inclusive em outros países. No entanto, Darnton não para por aí, ele nos mostra como que cada relatório desse inspetor sobre os escritores (cerca de 500), revela como uma forma de ver o mundo, e principalmente a literatura e os escritores daquela época. Também conhecemos como Hémere classificava, esquematizada e organizava a vida social e cultural da sua época.

            O historiador, tenta em sua obra, trazer o máximo de perspectivas daquele período na França; e com os temas mais extravagantes e distinto. Por exemplo: o que dizer de um leitor de 1750? Para a História, o trabalho de remontar a experiência de leitura do passado é algo extremamente difícil. Em relação ao geral, poucas pessoas liam no século XVIII. Muitos eram analfabetos e não esqueçamos que grande parte da população era camponesa. Agora, como saber como uma pessoa lia um livro? Como saber como ela identificava os mistérios e o sentimentalismo do livro? Como saber o que ela procurava num romance ou ensaio? Para que ela tinha olhares? É aí que Darnton conta a vida de Ranson, um burguês relativamente confortável financeiramente que era apaixonado por ler, principalmente por Rousseau e suas obras. Saber como uma pessoa lia um livro pode ser a chave para saber como ela lia (via) e dava sentido ao seu mundo. Então Darnton estuda as 47 cartas que Ranson enviou a uma grande editora suíça da época, todas haviam encomendas de livros e com isso podemos saber alguns dos tipos de obras que essa pessoa lia. Assim o historiador conseguiu encontrar um livro sobre  leitura em que Ranson havia comprado tanto para buscar práticas de leitura quanto para ensinar seus filhos, e analisando essa obra, o historiador pode ter uma noção de como as pessoas liam e buscavam o sentido no texto. Mas o que chama mais atenção é que esse burguês realmente mantinha uma conversa com o editor, contava de sua vida e principalmente falava sobre Rousseau e como amava suas obras. A partir disso, sabemos o poder da literatura e como ela realmente mudava o mundo dos leitores, elas não apenas tiravam um sentido ou uma “moral” das histórias que liam, mas a partir dos livros elas moldavam o próprio mundo. E sabe de algo mais? Darnton mostra qual mundo “literário” era esse.

            Acho que estou deixando me levar demais pela paixão dessas narrativas.  Os outros ensaios históricos nos esclarecem um pouco mais sobre os contos de fadas. Sabe os irmãos Grimm, Charles Perrault e esses outros famosos pelos seus contos como Chapeuzinho Vermelho, João e Maria? Então, Darnton conta um pouco do desenvolvimento desses contos, e como eles derivam das fábulas orais que os camponeses franceses contavam a beira da fogueira na noite. Ele traz o mais próximo desses contos originais, e como eles trazem o entendimento que os próprios camponeses tinham de suas míseras vidas violentas e sem esperança. . 
Darnton também mostra como esses contos orais franceses se desenvolveram e foram moldados por outras culturas, como alemã e inglesa. Ele mostra um pouco da face de cada uma, podendo nos mostrar a peculiaridade dos camponeses franceses e como pelo contos eles expressam seu mundo. Temos também a história da enciclopédia de Diderot, que Darnton não apenas mostra como ela foi desenvolvida, ampliada, e da onde a ideia e as inspirações surgiram para seus autores. Ele mostra como a enciclopédia foi um projeta puramente iluminista, um mapeamento do conhecimento e do mundo. Como que os autores viam essas classificados e ordenamentos das ideias e das informações da França do século XVIII. Há também a história de um burguês, que tão amante de sua cidade, decide escrever sobre ela para visitantes. Darnton nos mostra quem realmente é o burguês do Antigo Regime (sabe aquela coisa: onde vivem? O que comem? Como dormem? Rsrsrs) E disso, como ele via categorizadamente a sua sociedade, porque e como se considerava um burguês, e como podemos ter certeza disso.

            Enfim, depois de longos devaneios meus, o que eu tenho para dizer desse livro é que ele pode mudar o que você pensa da História, do passado e das pessoas que viveram nele. Darnton sempre, em toda sua produção histórica, teve o total cuidado de deixar seu texto claro para todo tipo de público. Ele é um verdadeiro bardo, que nos deixa curioso e controla com maestria seu público; sua voz nos encanta e ficamos presos à narrativa contada diante da fogueira. Sua escrita é cativante e tem um certo humor que dar prazer na leitura. Ele realmente veste o manto de historiador, daquele de mergulhar nos documentos empoeirados e trazer à luz histórias exóticas e cativantes, além de conseguir nós transportar àquele mundo distante no tempo, com pessoas estranhas, de pensamentos, experiências e vidas diferentes.
           

            Darnton tem uma grande produção historiográfica. Como dito, seu tema de pesquisa é a França do século XVIII – sua intelectualidade, suas simbologias e seus “moradores”. Sua atenção se volta à questão dos livros, do seu comércio, de seus autores, suas vidas e experiência. Seu objetivo é tentar remontar aquele mundo em suas múltiplas faces e perspectivas, e mostrar que a História não é apenas de reis, políticos, imperadores, generais, intelectuais. Não são apenas repletas de fatos e datas. Em outro livro, O Beijo de Lamourette, Darnton apresenta em um dos seus capítulos os intermediários do comércio livresco: os livreiros, editores, comerciantes, transportadores (imagine como era difícil atravessar uma fronteira montanhosa com uma imensa quantidade de livros ilegais). Ele busca essas histórias peculiares e bizarras para mostrar que, além de revelar a nós outras faces históricas, a história não se faz apenas aos pés de “grande ícones”.