A Eterna Guerra Épica: Personagem e História

14:04 MathVas 1 Comments


Hey, chega junto! Vamos conversar um pouquinho. Quero falar a respeito de algumas coisas interessantes. Uma discussão antiga!
 Quão velha é uma história? Quão velhos são os contadores de história? É meio difícil definir, mas gosto da ideia do Kvothe, em que, quando se ascendeu a primeira fogueira, havia contadores de história ( e talvez antes) para enriquecer suas tribos. Mas, então, o que eles contavam das histórias? As pessoas de tempos remotos pareciam se embebedar nas narrativas fantásticas para buscar respostas e explicar questões. Buscavam refúgios psicológicos, entretimentos, histórias cujo seus sangues ferveriam. As narrativas fantásticas criavam pensamentos, forjavam homens e mulheres, crianças e jovens. As histórias e suas narrativas faziam as pessoas acreditarem em credos, agirem de acordo com modos e costumes específicos. As narrativas então inseridas nas pessoas assim como as pessoas permeiam as narrativas.


Eae volto à pergunta, o que eles contavam? Para ser mais claro, contavam sobre heróis ou sobre histórias? Personagem ou história? Esse é sem dúvida uma grande questão aos escritores modernos, fruto de muitas hesitações e principalmente da percepção que os escritores têm de seu mundo. O que é priorizado, o personagem ou a história? Os eventos que moldam os personagens ou o personagem que molda os eventos?
            Liev Tostói em Guerra e Paz mostra como a História é o grande motor que gera tudo. Os eventos são os moldadores, e não é de estranhar que quando se volta de uma guerra a pessoa está mudada. Separado por algumas décadas, Milan Kundera em A Vida Está em Outro Lugar vê também a História como  uma grande força que atua entre as pessoas, que as mata, faz elas mudarem assim como nascerem ou renascerem.


            Temos então um Patrick Rothfuss em pleno século XXI mostrando em O Nome do Vento que Kvothe é o grande moldador da história. Tudo que está a sua volta muda, por um acaso ele mata um rei e isso gera uma guerra que arrasta os mais jovens para a esperança e a morte.


            Deixo claro que a história que estou querendo mostrar não é apenas a História com letra maiúscula, aquela que temos nas escolas e em livros didáticos. Ela também é a história do livro, o enredo, sua narrativa própria. Alguns escritores como Gabriel García Márquez desenvolveram em seus livros a importância da história, e apesar dele seguir em Cem Anos de Solidão a estirpe dos Buendías, eles são arrastados ininterruptamente pela solidão de uma América Latina.


            Temos também uma grande crítica a esses tipos de histórias... Lembremos-nos do Clube da Luta de Chuck Palahniuk em que, diante das maiores adversidades, eles estão lutando para destruir a história, tornarem-se os protagonistas, não mais os peões do tabuleiro.


            E agora, o que resta disso? Qual a maior importância? Personagem ou história? Um escritor moderno se vê encruzilhado nisso, a criação e construção de um herói, sua vida e os eventos que vive ou a criação de uma história empolgante que não tem o personagem como o principal ponto. Às vezes histórias são os próprios personagens, em alguns casos cidades como Balzac retrata em A Comédia Humana com sua Paris ou O Trono do Sol de S. L Farrel com sua Nessântico. Adentrando no gênero fantástico, temos um mar de livros, histórias e personagens, que dão inúmeros exemplos dos dois lados. No caso da história, muitos autores de fantasia adoram e amam de coração explorar o seu mundo, explicar ele aos outros, mostrar pedacinho de contos daquela terra, raças, heróis e animais fantásticos. Um grande exemplo é Tolkien. Muito do seu gosto de escrever parece estar em envolver um multiverso na história, colocar tudo que desenvolveu de seu mundo em pequenas pitadas no que é O Senhor dos Anéis. E também não ficamos surpresos com a grande empolgação de seus fãs que às vezes preferem O Silmarillion.


            Outros autores querem trazer os personagens. Esse sim tem o poder de mudar as coisas; outro grande exemplo disso é Brandon Sanderson em Elantris e em Mistborn. Sinto que para ele é um prazer escrever sobre os personagens, e muitas vezes nossas ligações se estreitam com suas criações. Por isso acabamos chorando.


            Em contraste temos Isaac Asimov com seu clássico Fundação. A graça nessa história não está tanto em sentirmos os personagens. Eles não têm nenhum controle da psico-história. Tudo já foi previsto, o imenso caos que que imundaria o Espaço. E o que realmente nos empolga é ver os eventos acontecerem, os personagens sofrendo a ação do tempo e das grandes transformações que percorrem a galáxia.


            Apresentando esse debate com grandes autores e suas grandes histórias parece apenas embananar todo esse texto aqui. Parece que não poderemos chegar há algum lugar.  Mas, talvez para criarmos alguma ideia básica, seja preciso embananar mais nossas cabeças.
            Essa grande questão talvez tenha surgido pelas perspectivas criadas, isso é, a visão que o autor quis colocar em sua narrativa. É como mostrar algo, mas devidamente sabido que livros podem ser contados de formas diferentes. Personagem e história seriam a mesma coisa, e uma é apenas perceptível quando se decide contar uma narrativa. Um personagem tem sua história, ele sofre pelos eventos que passou na vida ao mesmo tempo em que passa a levar eventos a outras pessoas. E assim num efeito de teia de aranha, em trocas mútuas. Sem história não temos personagem, sem personagem não temos história. Um é o outro, e nenhum existe na ausência do outro.


            Se quiser pensar numa forma literária, ela é como o protagonista do Clube da Luta, estão no mesmo corpo, mas ora o Taylor assume as rédeas das coisas, ora o personagem sem nome vem à tona. E aos poucos vamos entendendo que os homens não estão brigando com a história, eles estão brigando contra outros homens. Que as mulheres brigam contra outras mulheres. Pois, quem faz as histórias também são homens e mulheres, e eles brigam no clube da luta. Histórias brigam com personagens e personagens brigam com a história, incessantemente uma luta que perdura por milênios, cuja única importância que podemos dar a elas agora é aproveitar as histórias e os personagens.

Matheus Vasconcelos, o MathVas, tem 17 anos e cursa faculdade de História. Seu ofício e ócio são a escrita e, como nunca teve ajuda no começo, procura ajudar ao máximo jovens escritores como ele. Ama qualquer tipo de livros, mas acima de tudo a fantasia e o romance histórico. É daqueles que juntam centavo por centavo para comprar livros, nada mais!

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