O Homem Duplicado do Mago Saramago - Literários

14:28 Unknown 2 Comments


Saramago. Nunca havia me interessado por uma obra sua. Seu nome só algumas vezes chegava aos meus ouvidos – prestava atenção por um único motivo: havia mago em seu nome. Até hoje não sei o motivo que me levou a comprar algum livro seu, lembro apenas de estar cavando algumas coisas na Amazon e então ter clicado em O Homem Duplicado... Admito a vocês que aquilo sim é uma puta sinopse*, e como tinha dinheiro na época e estava preparando meu próximo carrinho de compras – juntamente com um preço baixo – eu comprei. Alguns dias depois ele chegou e como todos nós, após folhear e cheirar os livros recém-chegados, empilhei junto com os demais (porque também não temos espaço suficiente na estante rsrsrs).

       O professor de história Tertuliano Máximo Afonso descobre, certo dia, que é um homem duplicado. Ao assistir a um vídeo, ele se reconhece em outro corpo, idêntico ao dele próprio: um dos atores do filme é seu sósia.
Os desdobramentos dessa história são imprevisíveis. Mas o novo romance de José Saramago, esclareça-se logo, não tem nada a ver com clonagem ou outras experiências de laboratório. O que está em jogo é a perda de identidade numa sociedade que cultiva a individualidade e, paradoxalmente, estabelece padrões estreitos de conduta e de aparência.
Os romances recentes do escritor português retratam uma época de transformações que, para boa parte da humanidade, resultam mais em perdas que em ganhos. Em Ensaio sobre a cegueira, os personagens perdem a vista, sinal de um tempo em que todos parecem estar cegos. Em A caverna, artesãos perdem o emprego, incapazes de sobreviver à sociedade de consumo.
Em O homem duplicado, José Saramago constrói uma ficção extraordinária, apoiada numa questão extremamente atual e inquietante: a perda de identidade no mundo globalizado*.

2016 chegou e cada vez mais percebi o quanto continuava na mesma literatura. Então, decidi que esse ano passaria a variar de um tipo de literatura – seja francesa, russa, inglesa, fantástica, ficção cientifica – para outra. Li um clássico americano, depois passei para outro uruguaio, e não querendo comprar mais um livro de outro país, decidi passar para a literatura portuguesa. Fácil, já estava ali, não?
            Li a primeira página e bastou apenas ela para que eu ficasse com vontade de comprar todas as obras de Saramago. Caí de cabeça numa escrita desafiadora e bastante esperta. Primeiro, como exigência do próprio autor, O Homem Duplicado manteve sua originalidade na edição brasileiro, logo, sua linguagem de português de Portugal. Nenhum reajuste nem nada, exatamente as palavras que Saramago escreveu se encontram na edição da Companhia de Bolso. E ao terminar percebo o quanto isso foi necessário para que a obra se mantivesse de sua forma magnífica. Talvez num reajuste, muito da particularidade e da mágica da escrita de Saramago iria se perder drasticamente.
            A ideia que permeia o livro aparece cuidadosamente calculada em pequena quantidade ao longo das páginas, esfriando conforme o inicio vai se distanciando e adentramos mais nas peculiaridades do protagonista Tertuliano Máximo Afonso, um professor de história que mora sozinho; acostumado com sua vida monótona e suas particularidades. Sem muitos amigos, muito menos pessoas próximas a não ser os colegas de trabalho. Num belo dia então, por recomendação de um professor de matemática, que se mostra como um personagem bastante inteligente, Tertuliano Máximo Afonso assiste a um filme e fica pasmo por ver um ator parecido com ele. Desde aquele momento a vida desse simples professor vira de ponta cabeça; entra numa aventura desenfreada em busca do outro... não, não acontece isso. Ele não vai se desesperar, não vai agir por instinto loucamente e sair numa aventura em busca do outro. Fazer isso foi necessário para demonstrar que esse livro não é uma simples trama de aventura com uma ideiazinha legal de fundo e um amor que fica beirando o enredo. Ele se desenvolve calmamente ao longo de suas quase 300 páginas, conscientemente seguindo a vida de Tertuliano Máximo Afonso, que não vai perder a cabeça como numa trama barata.
          A partir do ponto em que ele descobre que há outra pessoal igual a ele, de cima para baixo, como estivesse olhando-se no espelho, Saramago introduz um diálogo interessante, complexo numa simbologia que se aprofunda cada vez mais para o inteiro do personagem refletindo em sua imagem. Por isso a grande necessidade que o autor teve de descrever o ambiente que Tertuliano Máximo Afonso mora, suas relações de trabalho e de vida particular, assim como de seus próprios vestimentas e características, como cabelo e barba. Esses aspectos não estão na história apenas por ambientar ou estar por bonito, mas para entrar em contrastes e relacionar muito com o homem duplicado, o ator que o professor de história se vê no filme. Entramos então num terreno cuidadoso, em que se deve prestar atenção nos detalhes, nas palavras e nas formas que se constrói o diálogo. Variando muitas vezes num narrador onisciente, o que sabe de tudo e ainda brinca com isso, trespassando uma hora para Tertuliano, outra para o ator de mesma aparência, brincando com o tempo e as aparências, tendo total liberdade de desmentir algo que afirmou no capítulo anterior, penetrando mais a fundou ou não na mente do professor de história. Isso sem dúvida enriquece a obra, e trazendo, apesar de comum essa forma de narrador, uma particularidade de Saramago, pois como dizem, um ganhador do Nobel de Literatura não apenas conta uma boa história, mas sabe muitíssimo bem a forma de conta-la. 




Há um tempo venho percebendo porque esses grandes autores realmente são grandes. Não é pela sua beleza, pelo país que nasceram... não é pela sua poética ou apenas a história... Eles se tornam grandes pela incrível sensação que conseguem deixar em nós, esse é o motivo de que livros que nos marcaram deixam um bom gostinho na nossa boca e um pensamento de quando você poderá rele-lo – aos amantes de Harry Potter, sabem exatamente como é isso. Li apenas uma única obra até agora de José Saramago, esse português de família humilde e que durante grande parte da sua vida teve que se virar em vários trabalhos diferentes, mas sem dúvida não apenas O Homem Duplicado, como todas as suas obras são dessas que se devem ter na estante, para que uma hora ou outra possamos visitar essas histórias novamente; nos deleitarmos com sua mágica. Assim como As Crônicas de Nárnia, O Hobbit, a Trilogia Fundação, Os Miseráveis, Guerra e Paz... e muitos outras que não me lembro nesse momento e de muito outras que ainda não tive o prazer de conhecer, mas que sem dúvida vou atrás deles, ou eles viram atrás de mim. É uma ou outra... 



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Há uma alternativa para que se interessar mais pela história. Em 2013 foi lançado, no Festival Internacional de Cinema de Toronto, uma adaptação para as telonas da obra de José Saramago. Ainda não vi para trazer alguma opinião a respeito, mas pelo que li, não traz a magica original do livro...

2 comentários :

  1. Bem, também tenho que admitir que, a princípio, o que havia me atraído até aqui fora justamente o "mago" no nome hahaha
    Anyway, adorei o texto e vou discutir sobre esse livro com meu professor de português no próximo sarau heheh, já que as palavras aqui citadas (queria colocar isso em itálico pra ficar bunitinho :3 ) atraíram minha atenção e minha mente curiosa para esse livro hahah
    (Parabéns Math ^^)

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    1. Agradeço, Victor!! Uma dica de leitura é ler lentamente, pois o livro tem seu próprio ritmo calmo e a escrita não apresenta travessão nem aspas para definir falas. Na verdade só sabemos o que é fala quando o autor coloca virgula e inicia a próxima palavra com letra maiúscula... por isso também requer concentração. Acho que essa é a primeira parte da "dificuldade... a segunda seria entender o que está rolando no enredo de verdade, a perda da identidade; fique ligado nisso :) No mais, aproveite a leitura, comente com todos pois Saramago realmente encanta!

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